quarta-feira, 15 de abril de 2020

Só agora



   Poética

Nascem com a manhã
(um dia e outro dia
 amanhecem
 uma promessa de palavras-espigas).

Vivem o tempo das rosas
 breves e ferozes e castas;
 vivem o tempo do amor
 desamor.

Comigo morrem
 em cada hora, cada pétala, cada
 verso.

 Poemas: só agora.


Emanuel Félix  (1936-2004)




sexta-feira, 10 de abril de 2020

Presos ou não?



Poemeto de liberdade

Se um dia estiveres preso
convence-te do seguinte:
o mundo inteiro é que está preso
numa prisão cujas paredes são as paredes da tua; 
e és só tu quem anda à solta.

Jorge de Sena (1919- 1978)




quarta-feira, 8 de abril de 2020

Flor do cardo



                                  nova adaga me penetra os costados
                                                                  de sangue coalhado
                                                                                      me sustento.

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Humour français


"Étant donné qu’on va tous mourir,
                                       si quelqu’un est amoureux de moi
                                                                                          en cachette,
                                                       c’est le moment de se manifester."






domingo, 5 de abril de 2020

Tanka 38




38       

Pergunto se o vento
 irá abrir algum trilho
 na erva do meu jardim
 para que alguém possa vir
 ainda hoje visitar-me.

   Isumi Shikibu
 Japão (974? -1034?)


sexta-feira, 3 de abril de 2020

Não tem nada que saber?!!...




Não tem nada que saber:
 os dias não são nossos
 e temos de pagar para estar neles.

Como em casa alugada,
 podemos dispor neles os nossos móveis,
 mas não podemos espetar pregos nas paredes,
 que o senhorio não deixa.

E, meus amigos, não vale
 a pena dramatizar:

um dia deixamos de poder
 pagar a renda

 e somos despejados.
 
Tão fácil como isso.



A. M. Pires Cabral (1941)

quarta-feira, 1 de abril de 2020

Canção (Araucanos)








 Pouca é a distância entre a vida e a morte.
 O caminho- ponte entre o mundo de baixo
 e o azul celeste -
 é mais curto que o caminho daqui até lá baixo.
 O mesmo que entre a vida e a morte.


(poema mudado para português por H Helder)