Passam os anos
e embora a vida me acuse de imobilidade,
também viajei.
Como uma partícula de pó
revoluteei pela casa e prendi-me aos livros.
Como um insecto repousei na margem das acéquias,
ou fui simplesmente uma mulher que tarde
após tarde
mirou o mar
procurando barcos esquecidos pela neblina
e que regressam à memória
sem outra esperança que não seja morrer.
Lauren Mendinueta, La Vocación Suspendida
quinta-feira, 3 de março de 2011
terça-feira, 1 de março de 2011
Primavera precoce
Segundo o calendário, ela chegar-nos-á apenas dentro de vinte dias. No entanto, se nos afastarmos da cidade e olharmos em volta, veremos a nossa «prima verdadeira» instalando-se em todo o lado-com pézinhos de lã, colorindo o mundo - com mãos de fada ... sem pedir licença !
terça-feira, 22 de fevereiro de 2011
Para a dupla que eu sou
Há fotografias onde não me reconheço.O meu eu cobarde ao olhar para elas
obriga-me a pensar que existo numa só
e não na súmula de quem sou
com essa outra que me suplanta na imagem.
Custa crer que a desconhecida também sou eu
essa mulher suspendida e feia
com um rosto que sem ser meu não é alheio.
Entender o mundo bem pode ser isso:
Aceitar que sou essa que desconheço.
Lauren Mendinueta,
La Vocación Suspendida (tradução em curso)
sábado, 19 de fevereiro de 2011
RuAugusta desenhada
Depois de vê-la nas paredes da FBA de Lisboa, no último dia em que esteve exposta, fiquei com pena de não ter podido, pelo menos, assistir à iniciativa que pôs mãos e olhos à obra, dos que sabem ou apenas gostam de desenhar-neste caso aconteceu na rua que tem o Arco.
terça-feira, 15 de fevereiro de 2011
terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
Eu não -Samuel Beckett
«...todo o corpo como que ido...só o rosto...boca,,,lábios...maçãs do rosto... maxilar..nem um - o quê?... língua ?...sim...boca...lábios...maçãs do rosto...maxilar...língua... nem um segundo de tréguas...boca em chamas...vaga de palavras...ao ouvido...quase ao ouvido...não percebendo nada...nem metade...nem um quarto...nenhuma ideia...do que ela conta...imaginem!...e não pode parar...impossível pará-la..dela que no instante anterior...num instante!...nada saía...nem um som...nenhum som de espécie alguma...ei-la sem conseguir parar...imaginem!...parar a vaga...e no cérebro mais do que uma prece..aí algures uma prece..à boca para que páre... um instante de tréguas...apenas um instante...e nenhuma resposta...como se ela não ouvisse...a boca...ou não pudesse...nem um segundo...como louca...a boca enlouquecida...tudo isto junto... a luta para encontrar o fio...e o cérebro...em pleno delírio também...a tentar encontrar um sentido...ou acabar com tudo isso...»
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