domingo, 8 de dezembro de 2013

Sal-gema

Poema 49

Este é feito de pedra, aquele de argila,
Mas eu brilho com um esplendor prateado…
Convém trair, o meu nome é Marina,
Sou a mutável espuma das vagas.

Quem é feito de carne, quem é feito de argila
Merece uma campa e lajes funerárias,
Mas eu fui baptizada no mar
E no meu voo incessantemente me quebro.

Em cada coração, em cada laço,
A minha fantasia abrirá um caminho,
Mas nunca- vê-lo-ás nestes caracóis insanos-
Podereis fazer de mim sal-gema.


Marina Ivanovna Tsvétaéva







sábado, 7 de dezembro de 2013

Flores

Pensando em algo totalmente diferente,
No tesouro que se não pode encontrar,
Passo a passo, uma papoila após outra,
Decoto todas as flores do jardim.

Do mesmo modo num dia de um seco
Verão, na estrema de um campo,
A morte, com uma mão distraída,
Tirar-me-á a vida.


         Marina Ivanovna Tsvétaéva








sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Pássaros


 A Musa
 Como viver com este fardo
 A que ousam chamar musa,
 Dizem-me:  « Tu segue-la no prado…»
 Dizem-me:  « que gorjeios divinos…»
 Mais forte do que a febre ela sacode-me,
 Depois fica o ano inteiro de bico calado.

            Anna Andréevna Akhmatova

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Problemas de trânsito

Guardado em mim estava o que não vi hoje nas ruas.
O cometa de gelo e pó desfez-se antes de chegar à terra-
-pudera! o astro rei aquece para lá das janelas
o cérebro em trânsito de uma para outra língua.



terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Risos

Tudo principia no princípio
o nascimento e a morte
o dentro e o fora de mim
tudo principia no princípio

-O poema principia no fim
                  Luis Veiga Leitão


segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Desdobrável

“Dor não tem nada a ver com amargura.
 Acho que tudo o que acontece
 é feito pra gente aprender cada vez mais,
 é pra ensinar a gente a viver. Desdobrável.
  Cada dia mais rica de humanidade” 
                            Adélia Prado





domingo, 1 de dezembro de 2013

Feriados anulados

Festa do corpo de Deus

Como um tumor maduro
a poesia pulsa dolorosa,
anunciando a paixão:
“Ó crux ave, spes única
Ó passiones tempore”.
Jesus tem um par de nádegas!
Mais que Javé na montanha
esta revelação me prostra.
Ó mistério, mistério,
suspenso no madeiro
o corpo humano de Deus.
É próprio do sexo o ar
que nos faunos velhos surpreendo,
em crianças supostamente pervertidas
e a que chamam dissoluto.
Nisto consiste o crime,
em fotografar uma mulher gozando
e dizer: eis a face do pecado.
Por séculos e séculos
os demônios porfiaram
em nos cegar com este embuste.
E teu corpo na cruz, suspenso.
E teu corpo na cruz, sem panos:
olha para mim.
Eu te adoro, ó salvador meu
que apaixonadamente me revelas
a inocência da carne.
Expondo-te como um fruto
nesta arvore de execração
o que dizer é amor,
amor do corpo, amor.
           Adélia Prado


Verdadeiro amor de Deus

Não me move, meu Deus, para querer-te
O céu que me hás um dia prometido:
E nem me move o inferno tão temido
Para deixar por isso de ofender-te.

Tu me moves, Senhor, move-me o ver-te
Cravado nessa cruz e escarnecido.
Move-me no teu corpo tão ferido
Ver o suor de agonia que ele verte.

Moves-me ao teu amor de tal maneira,
Que a não haver o céu, ainda te amara
E a não haver o inferno te temera.

Nada me tens que dar porque te queira;
Que se o que ouso esperar não esperara,
O mesmo que te quero te quisera.

Santa Teresa d’ Ávila