quinta-feira, 8 de janeiro de 2015
quarta-feira, 7 de janeiro de 2015
A onda
III
Muito
mais leve
do
que uma pena qualquer
de
qualquer penugem de um pássaro vulgar
é
a onda a virgular-se em altura
,
Voo
tão perto de tocar a nuvem
momento
mínimo antes do cair
ínfimo
espaço de um tempo
em
que a onda é ar
mais do que é mar
terça-feira, 6 de janeiro de 2015
segunda-feira, 5 de janeiro de 2015
domingo, 4 de janeiro de 2015
Ainda não... (Ah!)
não há dinheiro para partir de vez
não há espaço de mais para ficar
ainda não se pode abrir uma veia
e morrer antes de alguém chegar
ainda não há uma flor na boca
para os poetas que estão aqui de passagem
e outra escarlate na alma
para os postos à margem
ainda não há nada no pulmão direito
ainda não se respira como devia ser
ainda não é por isso que choramos às vezes
e que outras somos heróis a valer
ainda não é a pátria que é uma maçada
nem estar deste lado que custa a cabeça
ainda não há uma escada e outra escada depois
para descer à frente de quem quer que desça
ainda não há camas só para pesadelos
ainda não se ama só no chão
ainda não há uma granada
ainda não há um coração
António José
Forte,
6/2/1931-15/12/1988
sábado, 3 de janeiro de 2015
Alentejo: o «Cante»
Cante Alentejano
Nunca senti necessidade de fabricar um currículo nem de ter
um cartão de visita.
No verão passado apareceu-me o desejo de fazer um cartão em
que constasse: foi membro de um Concurso de Cantares Alentejanos realizado em
Beja em 1986.
Não me lembro de algo que me tenha dado tanto prazer como
esse convite, para tarefa de tanta responsabilidade. Engolidos os últimos
pruridos de consciência, e escorando-me na ideia que o principal era ter
sensibilidade à poesia alentejana e às vozes que a cantam, lá fui.
Como fazia frio nessa noite em Beja.
Muita gente enchia as ruas. Foram vinte e tal grupos
desfilando. Muitos membros do júri tremiam com aquele vento norte.
Das quatro notas máximas que atribuí, três corresponderam
aos três primeiros lugares. Senti- -me perdoado.
Dissera-me o médico que eu tinha um coração forte. Tirei a
prova: fui capaz de continuar vivo após ter ouvido vinte e tal grupos corais
alentejanos.
Perdi-me do autocarro, e como pacífica lua viajava, e como a
magia que há pouco inundara as ruas levaria muito tempo a passar, e como
desejava ver a planície sob essa lua, pus-me a pé, estrada fora, de volta a
Odemira. Não chegaria a pé, o autocarro apanhou-me em Aljustrel, tendo chegado
ali numa carrinha que andava à procura do Grupo dos Mineiros, do qual também se
perdera.
Deodato Santos, O Eco, (Crónicas Alentejanas), Associação de
Municípios do Distrito de Beja,1989
sexta-feira, 2 de janeiro de 2015
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