quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

A onda

                                              
                                                                                      









III
Muito mais leve
do que uma pena     qualquer
de qualquer penugem de um pássaro     vulgar
é a onda a virgular-se em altura
                       ,
Voo tão perto de tocar a nuvem
momento mínimo antes do cair
ínfimo espaço de um tempo
em que a onda é ar
                                            mais do que é mar

Rita Taborda Duarte, Na estranha casa de um outro, Edições Asa 

                

domingo, 4 de janeiro de 2015

Ainda não... (Ah!)


Ainda não
não há dinheiro para partir de vez
não há espaço de mais para ficar
ainda não se pode abrir uma veia
e morrer antes de alguém chegar

ainda não há uma flor na boca
para os poetas que estão aqui de passagem
e outra escarlate na alma
                                                         para os postos à margem

ainda não há nada no pulmão direito
ainda não se respira como devia ser
ainda não é por isso que choramos às vezes 
e que outras somos heróis a valer

ainda não é a pátria que é uma maçada
nem estar deste lado que custa a cabeça
ainda não há uma escada e outra escada depois
para descer à frente de quem quer que desça

ainda não há camas só para pesadelos
ainda não se ama só no chão
ainda não há uma granada
ainda não há um coração

António José Forte, 6/2/1931-15/12/1988

sábado, 3 de janeiro de 2015

Alentejo: o «Cante»

Cante Alentejano

Nunca senti necessidade de fabricar um currículo nem de ter um cartão de visita.
No verão passado apareceu-me o desejo de fazer um cartão em que constasse: foi membro de um Concurso de Cantares Alentejanos realizado em Beja em 1986.
Não me lembro de algo que me tenha dado tanto prazer como esse convite, para tarefa de tanta responsabilidade. Engolidos os últimos pruridos de consciência, e escorando-me na ideia que o principal era ter sensibilidade à poesia alentejana e às vozes que a cantam, lá fui.
Como fazia frio nessa noite em Beja.
Muita gente enchia as ruas. Foram vinte e tal grupos desfilando. Muitos membros do júri tremiam com aquele vento norte.
Das quatro notas máximas que atribuí, três corresponderam aos três primeiros lugares. Senti- -me perdoado.
Dissera-me o médico que eu tinha um coração forte. Tirei a prova: fui capaz de continuar vivo após ter ouvido vinte e tal grupos corais alentejanos.
Perdi-me do autocarro, e como pacífica lua viajava, e como a magia que há pouco inundara as ruas levaria muito tempo a passar, e como desejava ver a planície sob essa lua, pus-me a pé, estrada fora, de volta a Odemira. Não chegaria a pé, o autocarro apanhou-me em Aljustrel, tendo chegado ali numa carrinha que andava à procura do Grupo dos Mineiros, do qual também se perdera.


Deodato Santos, O Eco, (Crónicas Alentejanas), Associação de Municípios do Distrito de Beja,1989




sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Olhar

XXI
Sombra
Fruto maduro
Para rilhar
Com os caninos
De olhar.

Marta 

Bernardes, Claviculária