terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

1516 - 2016 : 500 anos após «Utopia»

por Hans Holbein, o jovem






Thomas More (1478-1535)








«...Em primeiro lugar, os príncipes cuidam somente da guerra (arte que me é desconhecida e que não tenho nenhum desejo de conhecer). Eles desprezam as artes benfazejas da paz. Trate-se de conquistar novos reinados, e todos os meios lhes parecem bons; o sagrado e o profano, o crime e o sangue, não os detêm. Em compensação, ocupam-se muito pouco de bem administrar os Estados submetidos à sua dominação....»

«... No entanto, bastar-lhe-ia olhar os romanos, os cartagineses e muitos outros povos antigos. Que benefícios tiraram, entretanto, de seus exércitos imensos e sempre em pé de guerra? A devastação de suas terras, a destruição de suas cidades, a ruína de seu império....»

excertos de Utopia


segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Batidas que se eternizam...


Canção de bater no chão

Nasce o sol trabalhamos.
Põe-se o sol descansamos.
Cavamos um poço, para beber,
Lavramos um campo, p’ra comer:
O Imperador e o seu poder
– Queremos lá saber!


Anónimo, China (datada do século III a. C)

 in Uma antologia de poesia chinesa, por Gil de Carvalho






domingo, 14 de fevereiro de 2016

Domingo



entro lentamente por tus venas
hasta inundar
todos los rincones de tu cuerpo
rescato tu nombre milenario
en cada arteria
te pierdo y me encuentro
en la profundidad de tu mirada
sin compañía alguna
invado tus pulmones
y vivo
y me recreo
con el aire que respiras
avanzo por debajo de tu piel
y organizo con exactitud
el metabolismo de tus penas
y tu cuerpo se convierte
en la zona sagrada de mi vida.
sin embargo,
hoy es mañana
y mañana será nunca.

María Emilia Cornejo, Perú (1949-1972)

sábado, 6 de fevereiro de 2016

Areia


Em frente
 da folha de papel

 em cima do que foi
 a vida até aí

Dia 8
os jogos olímpicos deviam ser
 para todas as idades
 eu gostava de ter
 o record olímpico da minha
e aproveitar a areia dos saltos
 para sair em grande
 pela porta
 de um concurso de praia.


Nuno Moura, 1970



quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Avenida (da Liberdade?)




AS PUTAS DA AVENIDA


Eu vi gelar as putas da Avenida
ao griso de Janeiro e tive pena
do que elas chamam em jargão a vida
com um requebro triste de açucena

vi-as às duas e às três falando
como se fala antes de entrar em cena
o gesto já compondo à voz de mando
do director fatal que lhes ordena

essa pose de flor recém-cortada
que para as mais batidas não é nada
senão fingirem lírios da Lorena

mas a todas o griso ia aturdindo
e eu que do trabalho vinha vindo
calçando as luvas senti tanta pena



Fernando Assis Pacheco, 1937-1995

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Mãos- tempo



Il y eut, jadis, une main
 pour nous conduire à la vie.

Un jour y aura-t-il une main
 pour nous conduire à la mort?

 Tu n’as plus de mains. Tu dors.

On meurt de ses propres mains
 (On meurt sans mains)

Tel l’oiseau dans le nid,
 ma tête est dans ma main.
 L’arbre resterait à célébrer,
 si le désert n’était partout.

À l’univers s’accroche encore
 l’espérance du premier vocable;
 à la main, la page froissée.
Il n’y a de temps que pour l’éveil.


Edmond Jabès, Egipto/França,  (1912-1991)