quinta-feira, 14 de maio de 2020

A DIFERENÇA QUE HÁ -segundo J. de S.





A diferença que há entre os estudiosos e os poetas
É que aqueles passam a vida inteira com o nariz num assunto
A ver se conseguem decifrá-lo, e estes
Abrem o livro, lêem três páginas, farejam as restantes
(nem sequer todas) e sabem logo do assunto
o que os outros não conseguiram saber. Por isso é que
os estudiosos têm raiva dos poetas,
capazes de ler tudo sem ter lido nada
( e eles não leram nada tendo lido tudo).
O mal está em haver poetas que abusam do analfabetismo,

E desacreditam a gaya Scienza


Jorge de Sena (1919-1978)


domingo, 10 de maio de 2020

Às aranhas



Às aranhas deste quarto

Vós que esperastes aqui antes de mim
 em silêncio mães do silêncio
 sempre soube que estáveis presentes
 pudesse eu ver-vos ou não
 nas nuvens cinzentas nos cantos altos
 fiandeiras das profundezas das sombras

que se repetem sem memória
 erguendo-se por baixo do momento
 quando este respira treme e se foi
 portadoras de uma mensagem não conhecida
 herdeiras de uma linhagem invisível

chegou o momento de agradecer-vos
 por nunca me terem aparecido
ao longo destes anos guardiãs da não palavra
 assídua nesta sala muda enquanto
 o pássaro cantou a chuva murmurou
 e a voz ecoou da estrada

pacientes guardiãs que desvendaram
 em cada som a hora da mosca

           W.S. Merwin
       (a tradução foi feita por mim)


sexta-feira, 8 de maio de 2020

Aterragem



De passagem sobre esta terra

zumbe o motor
 isto é, funciona em círculos concêntricos
 o parafuso imobiliza o aparelho
 atordoado no banco junto à janela
 ver exultando se o solo absorve
 as gotas
 se o vapor sobe
 e se confunde
 com os cabos
 se as linhas cedem
 deslizar monótono até à queda onde se precipitam
 os veículos

 em direcção ao aglomerado compacto
 perto dos fracos, limites
 descer
 andar de cabeça baixa
 sem pedir ajuda
 diluir-se entre a multidão

Adelaida Villela, México (1939)
- a tradução, do francès, é minha-


terça-feira, 5 de maio de 2020

Línguas



Com a língua me lambes
 de doces falinhas me envolves
 Com a palavra na boca estou
 tenho o nome debaixo da língua
de poucas falas sou
 mas decoro tudo
  num ápice na ponta
 da língua sei o sabor
Pensando em voz alta
 deitas falação barata
 bebes as tuas palavras
Não falamos a mesma língua
soltas a tua
viperina
não dou com a minha nos dentes
enches agora linguiça
 da fina
com voz de falsete
Faço ouvidos de mercador.


segunda-feira, 4 de maio de 2020

Língua- comunidade



Sotaque da terra

Estas pedras
 sonham ser casa

sei
 porque falo
 a língua do chão

 nascida
 na véspera de mim
 minha voz
 ficou cativa do mundo,
pegada nas areias do Índico

 agora,
 ouço em mim
 o sotaque da terra

 e choro
 com as pedras
 a demora de subirem ao sol

Mia Couto, Moçambique (1955)



domingo, 3 de maio de 2020

Fala livre e Mãe



«O relatório anual de 2020 da Plataforma do Conselho da Europa para promover a Protecção do Jornalismo denuncia que os ataques à liberdade de imprensa no contexto da pandemia de covid-19 pioraram um cenário já sombrio.»
                                        excerto do dNotícias.pt , de 2/5/2020

                                       Uma história pequenina


- Tu és linda mãe! dizia o pequeno Carlos fixando-a nos olhos negros. 
Ela sorriu-se, sentindo-se a doce carícia daquela boca gentil.
- E podes acreditar-me, cara mais linda que a tua ninguém encontra, não há! Das tuas mãos é que eu não gosto.
- Sim, são feias tens razão. De hoje em diante, meu filho vou evitar que tu as vejas...
- E a propósito, respondeu o pai, precisas de ouvir uma história muito bonita, embora a sua lição seja um bocadinho triste.
"Vem para aqui para o pé de mim. Senta-te; não te distraias. 
E começou a contar:
Certa noite uma criança dormia tranquilamente quando por descuido inexplicável, a luz mortiça da lamparina incendiou as cortinas de cambraia do seu berço. aos gritos da mãe, correu a mãe, aflitíssima, que sem hesitar lançou os braços para o filho arrancando-o àquela morte tão má. 
E aquelas mãos muito brancas, com as veias muito azuis, tornaram-se disformes, horrivelmente queimadas. 
Depois...
O pequeno não aguardou a conclusão; correu para a mãe e disse abraçando-a num beijo de alma: 
- As tuas mãos são as mais belas do mundo!

                    António Botto (1897-1959), no Livro das Crianças



sábado, 2 de maio de 2020

Aquele Maio




TO THIS MAY

They know so much more now about
the heart we are told but the world
still seems to come one at a time
one day one year one season and here
it is spring once more with its birds
nesting in the holes in the walls
its morning finding the first time
its light pretending not to move
always beginning as it goes

W.S.Merwin