sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

Os mortos

 

Remorso por qualquer morte

Livre da memória e da esperança,
ilimitado, abstrato, quase futuro,
o morto não é um morto: é a morte.
Como o Deus dos místicos,
de Quem todos os predicados devem ser negados,
o morto ubiquamente alheio
nada mais é do que a perdição e ausência do mundo.
Tudo dele roubamos,
não lhe deixamos nem uma cor nem uma sílaba:
aqui está o pátio que já não compartilham seus olhos,
ali a calçada de onde espreitavam suas esperanças.
Mesmo o que pensamos poderia estar pensando ele também;
dividimos como ladrões
o fluir das noites e dos dias.

Jorge Luis Borges, Argentina (1899-1986)

       - tradução p.b de Nelson Santander-




quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

Sem importância

 Nada, mas nada mesmo

 tem a menor importãncia


Nem antes

 Nem depois

 Nem durante


Francisco Alvim, Brasil, 1938



quinta-feira, 26 de novembro de 2020

Vitrines 1, 2, ...


como tu Paula 

Sinos mas a dobrar  

dou por mim

                                                              a querer saber

                                                              a perguntar

                                                                             - será a minha própria respiração

            ou a dos outros

     o que embacia a vida?


 


 

 

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Caixa de costura

(…) na breve partícula de seiva não se entende a pétala,

 mas lá é que se é primeiramente.

muito antes da idade, muito antes dos afectos

nos multiplicarem o rosto.

de resto pouco há a dizer: de livro a capítulo,

de capítulo ao esquecimento cada vez mais branco da página.

os outros partem mal nascemos e renascemos,                                                                                                                                                                                                                   tornamos por extenso no coração ao mendigo.(...)

                              Leonardo




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