quinta-feira, 17 de outubro de 2013

SINAIS DE FOGO
Sinais de fogo, os homens se despedem,
 exaustos e tranquilos, destas cinzas frias.
E o vento que essas cinzas nos dispersa
 não é de nós, mas é quem reacende
 outros sinais ardendo na distância
um breve instante, gestos e palavras,
ansiosas brasas que se apagam logo.
        Jorge de Sena, Visão Perpétua

terça-feira, 15 de outubro de 2013

A perfeição

A perfeição demora anos, e nesse longo,muito longo tempo, há recuos, avanços,recuos, pequenos avanços...
Julião dixit, reportando-se aos humanos. Tratando-se de anjos,não consigo imaginar o que diria.
In illo tempore,soiam os trovadores  cantar, em nome da mulher,
Muito me tarda o meu amigo na Guarda...

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Caçar anjos é o meu hobbie. Há anjos mais azuis do que outros; serafins que nunca se afastam das nuvens onde escondem o sexo etéreo; coros de anjos; querubins de altos voos que sigilosamente nos ciciam ao ouvido vocábulos de encantar ou nos tapam as orelhas com suas minúsculas asas… e há-os também, rechaçados dos céus pela atrevida sabedoria de sua alada rebeldia. São esses que prefiro encontrar nus e brilhantes nos recantos vazios das cidades: dou-lhes com doçura a mão, trago-os para casa onde se eternizam em suas vívidas fulgurações. Anjos que me guardam.

Der Schutzengel
Du bist der Vogel, dessen Flügel kamen,
wenn ich erwachte in der Nacht und rief.
Nur mit den Armen rief ich, denn dein Namen
ist wie ein Abgrund, tausend Nächte tief.
Du bist der Schatten, drin ich still entschlief,
und jeden Traum ersinnt in mir dein Samen, -
du bist das Bild, ich aber bin der Rahmen,
der dich ergänzt in glänzendem Relief.

Wie nenn ich dich? Sieh, meine Lippen lahmen.
Du bist der Anfang, der sich groß ergießt,
ich bin das langsame und bange Amen,
das deine Schönheit scheu beschließt.

Du hast mich oft aus dunklem Ruhn gerissen,
wenn mir das Schlafen wie ein Grab erschien
und wie Verlorengehen und Entfliehn, -
da hobst du mich aus Herzensfinsternissen
und wolltest mich auf allen Türmen hissen
wie Scharlachfahnen und wie Draperien.

Du: der von Wundern redet wie vom Wissen
und von den Menschen wie von Melodien
und von den Rosen: von Ereignissen,
die flammend sich in deinem Blick vollziehn, -
du Seliger, wann nennst du einmal Ihn,
aus dessen siebentem und letztem Tage
noch immer Glanz auf deinem Flügelschlage
verloren liegt...
Befiehlst du, dass ich frage?
Rainer Maria Rilke, 24.7.1899, Berlin-Schmargendorf

Contraltanaria urbana





quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Mar profundo

PELAGOS
Le désastre se peint à l’aube
sur le pont du paquebot de secours
et le visage des hommes
sur le point de parler.

La terre, les poches pleines de cailloux,
à la barre des flots
proteste de par les cieux
qu’elle désavoue l’homme.

Lui, ne voit qu’écorces, épluchures,
fragments honteux de masques qui s’incurvent,
et décide d’avorter la Mémoire
mére des Muses.
FRANCIS PONGE, Proêmes, Éditions Gallimard,1948

PÉLAGO

O desastre manifesta-se ao despontar da aurora
na ponte de socorro do paquete
e no rosto dos homens
prestes a falar.

Com os bolsos cheios de pedras,
nas vagas da enchente da maré, a terra
declara em nome dos céus /que não reconhece o homem.
Este, apenas vê crostas, cascas,
fragmentos vergonhosos de máscaras que se encurvam,
e decide abortar a Memória
mãe das Musas.