segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Língua-variações

Salette Tavares
LÍNGUA PORTUGUESA

Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela
Amo-te assim, desconhecida e obscura
Tuba de algo clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela,
E o arrolo da saudade e da ternura!
Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
                 Amo-te, ó rude e doloroso idioma,
                                           Em que da voz materna ouvi: "meu filho!",
                                           E em que Camões chorou, no exílio amargo, 
                                           O gênio sem ventura e o amor sem brilho!
 


                                      Olavo Bilac, Brasil, (16/12/1865-28/12/1918).

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Chuvas



Chove muito, chove excessivamente…
Chove e de vez em quando faz um vento frio…
Estou triste, muito triste, como se o dia fosse eu.
Num dia no meu futuro em que chova assim também
E eu, à janela, de repente me lembre do dia de hoje,
Pensarei eu «ah nesse tempo eu era mais feliz»
Ou pensarei «ah, que tempo triste foi aquele»!
Ah, meu Deus, eu que pensarei deste dia nesse dia
E o que serei, de que forma; o que me será o passado que é hoje só presente?…
O ar está mais desagasalhado, mais frio, mais triste
E há uma grande dúvida de chumbo no meu coração…


Álvaro de Campos

Tremor/ Temor

E Santos Neves
As vozes não têm idade
 quando contam os terramotos
   à luz das lareiras.

Agora como há muitos anos
  em redor das brasas
    se fala de terramotos.


   Kyoroku (1656-1715)

sábado, 31 de janeiro de 2015

Sunday morning


Ler

O HOMEM QUE LÊ

Eu lia há muito. Desde que esta tarde
com o seu ruído de chuva chegou às janelas.
Abstraí-me do vento lá fora:
o meu livro era difícil.
Olhei as suas páginas como rostos
que se ensombram pela profunda reflexão
e em redor da minha leitura parava o tempo. —
De repente sobre as páginas lançou-se uma luz
e em vez da tímida confusão de palavras
estava: tarde, tarde... em todas elas.
Não olho ainda para fora, mas rasgam-se já
as longas linhas, e as palavras rolam
dos seus fios, para onde elas querem.
Então sei: sobre os jardins
transbordantes, radiantes, abriram-se os céus;
o sol deve ter surgido de novo. —
E agora cai a noite de Verão, até onde a vista alcança:
o que está disperso ordena-se em poucos grupos,
obscuramente, pelos longos caminhos vão pessoas
e estranhamente longe, como se significasse algo mais,
ouve-se o pouco que ainda acontece.

E quando agora levantar os olhos deste livro,
nada será estranho, tudo grande.
Aí fora existe o que vivo dentro de mim
e aqui e mais além nada tem fronteiras;
apenas me entreteço mais ainda com ele
quando o meu olhar se adapta às coisas
e à grave simplicidade das multidões, —
então a terra cresce acima de si mesma.
E parece que abarca todo o céu:
a primeira estrela é como a última casa.

R M Rilke, checo de língua alemã (4/12/1875-29/12/1926)

(tradução de Maria João Costa Pereira) 

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Shiki

Já li trezentos haiku
 junto de mim
  apenas dois diospiros

Li trezentos haiku
 sobre a mesa
    dois diospiros




                                               Crisântemos murchos
                                                 peúgas a secar na vedação

                                                     – um dia bonito


                   Shiki (1867-1902)

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Haiku


               As noites dos homens de outrora
foram semelhantes à minha
           a esta noite de chuva fria


           Buson


              Grito do faisão prateado
que não pode dormir
            a lua fica gelada

          Kikaku