A amendoeira no inverno: quem pode dizer se esta madeira
em breve se vestirá de fogo no meio das trevas
ou de flores no dia uma vez mais?
Assim se alimenta o homem da terra fúnebre.
Philippe Jaccottet, Suíça (1925- 2021)
A amendoeira no inverno: quem pode dizer se esta madeira
em breve se vestirá de fogo no meio das trevas
ou de flores no dia uma vez mais?
Assim se alimenta o homem da terra fúnebre.
Philippe Jaccottet, Suíça (1925- 2021)
Por que hei-de cantar um hino às
florestas?
Por que hei-de louvar
o coração dos ouriços-cacheiros?
O coração de uma mulher, o coração de um homem
são maiores.
Mas eles recusam-se obstinadamente
a entrar nos meus poemas.
Por isso instalo-me na soleira
à espera de que alguém entre
e entretanto canto
as florestas e também
o coração dos ouriços-cacheiros.
Kurt Marti, Suíça (1921-2017)
- tradução
de Luís F. Parrado-
Rodeiam-me as palavras
- só elas-
em sua versão grafada
não tem porquê a soprada
nos meus dias
cada vez mais
despovoados
A qualquer momento
uma avaria surgirá
em meu aparelho fonador
por falta de uso
por míngua de amor
outras partes do corpo
se desativarão
até chegar a vez do
coração.
Terra e céu em suspensão
cinzas
pasmo
O bico amarelo do melro
rasga da solidão
o marasmo
no canto chega-me
o eros da palavra
o terso estigma a iris na flor
batendo súbito as asas
a tesão do amor
irrompe apalavra
brasas crepitam nos
braços
centelhas que o corpo
encerra
Devolvei-me senhor
os seus abraços
o fogo da terra
o ondulante mar
e a via láctea no céu
por onde
eu
costumava
andar
Novembro
Jovens e
velhos
agrupam-se
entre as
quentes ruínas de Roma,
e sobre
elas os plátanos deixam cair
ao som do
papel
as suas
folhas douradas.
Os jovens
falam aos velhos
das coisas
que gostam,
e os
velhos fazem de conta que nada ouvem.
Aldo Palazzeschi, Itália (1885-1974)
(tradução de João
Coles)
Roma
Roma
é como as
ruínas
de uma
relação amorosa
restos de
beleza
a céu
aberto
Daniel Jonas
Ah ver o mar
Antes que se abra nova fenda
ou ferida de tanto avançar
dar três passos para trás
tornozelos imersos no mar
Foge-se com efeito para a frente
- mais depressa ou menos devagar
quando há perigo
iminente
é avisado recuar
- bem depressa e menos devagar
Siar ciar
vogando a direito
evitando a corrente
Se velas houver
a grande caçar
mareando o estai
ziguezaguear
o vento aparente
ai!
do leme de ló
ao leme de encontro
vertigem
Vai- não-vai
Oooh… Ó
coragem içar
e
Ala!
com alento
como sempre manobrar
Atenta ao
som da negra areia
às formas
às linhas
de material tecido
às vezes
gravo
outras … escavo
em ígnea pedra
o que lhes é devido
- delas ascende
a minha voz…
mas é de mim
que sempre arranco
da vibração latente
num canto
ao fundo
hialino quartzo
laminados
nós
meus frágeis
alicerces
do mundo