Engulo tanto mundo
Tantas humanidades
Mas não me consigo saciar.
Mastigo dor e cuspo alegria
Recebo desespero e dou esperança
Inspiro ódio e expiro amor
Morro e sei de novo viver.
Dentro de mim há um enorme universo
Onde me movo e me iludo à vontade
E se algum dia
Aparecer um deus a pôr aí o dedo
Dar-lhe-ei a morte prematura
Alberto Lopes in Mirabilis de veias ao sol, Antologia dos novíssimos poetas cabo-verdianos, 1998
Como os ciganos
gosto dos caminhos para o sul
Onde passa o cigano e a rola bComoos ciganos entre sul e viagemdo outro nos somos de out
Nosso amor é desaC
E todos os amantes são raianos
Como os ciganos de passagem
Como os ciganos
Eu gosto dos caminhos para o sul
Onde passa o cigano e a rola brava
Como os ciganos entre sul e viagem
do outro lado do rio
Como os ciganos somos de outra margem
Nosso amor é de bala e desafio
E todos os amantes são raianos
Como os ciganos de passagem
Pela manhã limpei a caliça que caiu da chaminé, empurrada por ventos agora quentes,
cortei em fatias o pão de ontem que partilhei com os pombos das rochas no exílio;
depois saí e reli o Génesis 1-3 debaixo de um amplo guarda-sol, bebendo um porto branco bem seco.
Pensei ir ao desfile, mas possuída por flores mil, iniciei já em casa outra leitura de sentido contrário ao mito da criação e, de pés nus, caminho para o sono neste dia mundial do trabalhador.