sexta-feira, 15 de julho de 2016
quinta-feira, 14 de julho de 2016
Louvação
(...) LOUVADA SEJA a lágrima espontânea
que lentamente nasce
nos formosos olhos
dos jovens
que se tomam pela mão
dos jovens que se
olham e não falam
O balbuciar dos namorados sobre as rochas
um farol que deslaça
a tristeza dos séculos
o grilo
persistente como o remorso
e o xaile abandonado
na brisa da noite
A MENTA
áspera e perjura entre os dentes
dois lábios que não
podem consentir e no entanto
o «adeus» que brilha um momento nas pestanas
e depois o mundo
turvo para sempre
O lento e
pesado orgão das tempestades
Heráclito na sua voz
arruinada
o outro lado invisível dos assassinos
o pequeno «porquê»
que ficou sem resposta
LOUVADA SEJA a mão que regressa
do crime terrível e
sabe agora
qual é em verdade o mundo superior
qual é o «agora» e o
«sempre» do mundo:
AGORA a fera do mirto Agora o grito de Maio
SEMPRE a consciência
extrema Sempre a lua cheia
Agora agora a ilusão e a mímica do sono
Sempre sempre a
palavra e a Quilha estrelada
Agora o movimento da nuvem dos lepidópteros
Sempre a luz circundante dos mistérios
Agora a crosta da Terra e a Potência
Sempre o pão da Alma
e a quintessência
Agora a incurável
negrura da Lua
Sempre o brilho azul
dourado da Galáxia
Agora a amálgama dos povos e o negro Número
Sempre a estátua da
Justiça e o grande Olhar
Agora o declinar dos Deuses Agora a cinza do Homem
Agora Agora o nada
e Sempre o mundo pequeno, o Grande!
Odysséas Elytis,
excerto final de Áxion Estí, (publicado em 1959)
sexta-feira, 8 de julho de 2016
Barafunda de estrelas
IV
ADICIONEI os
meus dias e não te encontrei
nunca, em sítio
nenhum, para me tomares a mão
no clamor dos abismos e na minha barafunda de
estrelas!
Tomaram uns o Saber e
outros o Poder
a escuridão rasgando a duras penas
e pequenas máscaras,
de alegria e tristeza,
ajustando à
face arruinada.
Eu é que não, não
ajustei máscaras,
deitei para trás de mim alegria e
tristeza
pródigo deitei para
trás de mim
o Poder e o Saber.
Adicionei os meus dias
e fiquei sózinho.
Disseram uns: porquê? Este também há-de
viver
na casa com vasos e a
branca noiva.
Cavalos de pêlo fulvo e negro acenderam-me
a obstinação por
outras mais brancas Helenas!
Almejei outra mais secreta bravura
e aí onde me
impediram, invisível, fui a galope
restituir as chuvas aos campos
e recuperar o sangue
dos meus mortos insepultos!
Disseram outros: porquê? Este também
há-de conhecer,
até ele, a vida nos
olhos do outro.
Não vi olhos
de outrem, não encontrei nada
senão lágrimas no vazio que abraçava
senão
borrascas na serenidade que suportava.
Adicionei os meus dias e não te encontrei
e enverguei
as armas e saí sozinho
para o clamor dos abismos e a minha barafunda de estrelas!
Odysséas Elytis, Grécia
(1911-1995)
(
tradução de Manuel Resende)
quinta-feira, 7 de julho de 2016
Cavalos
Cavalo, cavalo da terra, saltas sobre
toda a pobreza chã ou obstáculo.
O vigor da palavra é evidência acesa
é saber-te do chão até à crina.
Quem te arranca a força de raiz
em que vale te cavam ou te calam,
de perfil ou de fronte és cavalo sempre,
cavalo de sempre.
O teu nome é uma parede que nos fala
sobre o teu silêncio. E é um nome
que não se excede e horizontal se lê,
a prumo.
quarta-feira, 6 de julho de 2016
domingo, 3 de julho de 2016
Turqueza
Turquesa
¿Cómo pudo el óxido
crear tanta belleza?
Torso de bronce, dedos de bronce,
lengua de bronce,
revestida en turquesa
como la Estatua de la Libertad
o las fachadas de hierro forjado de Manhattan,
como el cascarón de petirrojos reciénpuestos
frágiles y precisos como la vida misma,
como la silueta de los rascacielos
enredada en estos dedos de bronce,
forjadores de versos— versos que también
se oxidarán—.
¿Cómo pudo el tiempo oxidar
tanta belleza?
Vida desteñida de turquesa sagrado,
turquesa tóxico e imposible de
recrear como la vida misma,
vida que se vuelve de color turquesa
a medida que nos oxidamos,
a medida que nos acercamos
al otro lado…
(Alba)
Alex Lima, Equador, 1975
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