quinta-feira, 8 de dezembro de 2016
quarta-feira, 7 de dezembro de 2016
Milagre dos peixes
PEIXES-4
São, de todos, os
mais esquivos, tão
esquivos que nem na arca de Noé
quiseram entrar. Também, para quê?
Rui Caeiro, 1943
terça-feira, 6 de dezembro de 2016
Lampedusa & afins
DO EXÍLIO
Nada era perfeito, havia muito tempo,
por isso jogávamos
batalha
naval para nos
entretermos:
Quem perdia não
interessava,
éramos pequenos:
Dependia da posição
dos barcos,
e como em tudo havia dois lados
nenhum culpado, só um
desejo:
Afundar e ganhar o
jogo.
Hoje, crescemos no mar mais
azul de todos:
voltam-se
embarcações mais
humanas
que as nossas, se
perdemos:
Lampedusa é refugio de mortos
em fundo aquático,
sem coro
que os comente ou
peixe que
os coma:
E enquanto isto, eles deixam tudo
sem tempo de olhar
para trás,
ou meios de olhar para a frente,
Tentando o barco do exílio
e saindo-lhes a barca
de caronte,
por engano e
desespero.
Ricardo Marques, 1983
domingo, 4 de dezembro de 2016
Ferreira Gullar
Cantiga para
não morrer
Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve.
Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.
Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.
E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.
Falar
A poesia é, de fato, o fruto
de um silêncio que sou eu, sois vós,
por isso tenho que baixar a voz
porque, se falo alto, não me escuto.
A poesia é, na verdade, uma
fala ao revés da fala,
como um silêncio que o poeta exuma
do pó, a voz que jaz embaixo
do falar e no falar se cala.
Por isso o poeta tem que falar baixo
baixo quase sem fala em suma
mesmo que não se ouça coisa alguma.
Ferreira Gullar,
Brasil (1930-2016)
sábado, 3 de dezembro de 2016
Dos Peixes
Dos Peixes
Fixemos os animais mutáveis, vidas
em constante
deambulação onírica
pela natureza
Quantos sentidos têm, intrans-
missíveis?
E como fixar nos olhos
um peixe
para que ele nos queira?
Luíza
Neto Jorge
(1939-1989)
sexta-feira, 2 de dezembro de 2016
Pensar? Sentir?
Cabeça, Coração
O coração chora.
A cabeça tenta ajudar o coração.
A cabeça diz ao coração como são as coisas
outra vez:
Vais perder quem amas. Todos se irão. Até a
terra se irá, algum dia.
O coração sente-se melhor, então.
Mas as palavras de cabeça não duram muito nos
ouvidos do coração.
É tudo muito novo para o coração.
Eu quero-os de volta, diz o coração.
A cabeça é tudo o que o coração tem.
Ajuda, cabeça. Ajuda o coração.
Lydia Davis,
EUA, 1947
( tradução de M Serras Pereira e Manuel Resende)
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