segunda-feira, 13 de julho de 2020

No fundo da memória, uma fera




É a violência que dita os nossos percursos

como a paixão que se extingue em mãos indomesticáveis,
 o pulsar das linguagens que dominamos
 dentro de cada cicatriz, uma memória
 dentro de cada reino, um tirano.
 é de violência que somos feitas
 como acordar para uma ressaca infinita
 e cancelar a noite, apagar os emails onde nos ofendemos.
há um animal selvagem no fim da memória
alimenta-se do furor das coisas
aquelas que são atiradas para o chão e partem
e se desfazem em tantos pedaços inalcançáveis até serem
a confusão que trazemos por dentro.

Sara F. Costa, 1987


domingo, 12 de julho de 2020

Momentos






Ponto assente: vamos morrer. A questão é quando e como. Na verdade, o como não chega a ser questão. Podemos morrer de morte súbita, de morte lenta, de acidente, assassinados, podemos pôr termo à vida. Que importa? A questão essencial é quando vamos morrer. Se esta dúvida nunca atormentou o leitor, ponha os olhos em Adalberto Pirralha. Morreria para saber quando seria o seu momento fatal.

               (excerto de Call Center)

          Henrique Manuel Bento Fialho, 1974

sábado, 11 de julho de 2020

Sabor/Rumor



esse oculto sabor das coisas fluidas!

 um silvo que celebra o sol
 como se um chamamento:
 é um favo, uma flor, a mamangava,
é o zoom de uma asa mordida,
 e a pulsação do silêncio miúdo
 celebrando a vida
do voo mínimo à breve meta florida,
 um zumzum de girassol
 em flor, em favo,
 um pouso, enfim,

 e a sangrenta paz pulsando
 em todo silêncio:

esse oculto rumor das coisas mínimas!


(autor não identificado)


sexta-feira, 10 de julho de 2020

Colecionando ...


        Frases delicadas

III


Ela é uma coleccionadora de homens.


Tão eficaz como o colector de impostos e o seu laço

 Perseguindo o gado de qualquer pobre lavrador.

 Prendeu-me com o olhar,

 Anestesiou-me com o seu perfume,

 Por fim enlaçou-me com os seus longos e escuros cabelos.

 

 Assim me marcou ela

Com o seu ferrete de fogo.


in Poemas de amor do Antigo Egipto (1567 e 1085, a.C.)

(tradução de Helder Moura Pereira)




terça-feira, 7 de julho de 2020

Batimentos e paragem



Um homem caminha na minha direcção.
Traz o coração a bater nas mãos.
 Aproxima-se de mim, estende-as e diz:
 - Por favor, faça com que páre.

   Marta Chaves, 1978


segunda-feira, 6 de julho de 2020

Visão periférica






            De tentar ver por todos os lados eu fico tonta
             e com o coração a milhas não devia falar

                                                    Helga Moreira, 1950

quinta-feira, 2 de julho de 2020

Cigarras


https://www.youtube.com/watch?v=xytiUjfqMCA

Nunca as vi
Sempre  reconheci
a estridência do
 seu chamamento




Nada indicia
no canto da cigarra
que ela está perto do fim

Bashô, Japão (1644-1694)
- a tradução, do francês, é minha-

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