O quotidiano "não"
Alexandre O´Neill (1924-1986)
O quotidiano "não"
Alexandre O´Neill (1924-1986)
Ítaca
O ser amado não
precisa viver. O ser amado
vive na cabeça. O tear
é para os pretendentes, suspenso
como uma harpa de brancos filamentos.
Ele era duas pessoas.
Era corpo e voz, o fácil
magnetismo de um homem vivo, e então
o sonho revelado ou a imagem
formada pela mulher manejando o tear,
ali sentada num salão cheio
de homens de mentes literais.
Se te causa pena
o mar enganado que tentou
levá-lo para sempre
e devolveu apenas o primeiro,
o verdadeiro marido, deverias
sentir pena desses homens: eles não sabem
para o que estão olhando;
eles não sabem que quando alguém ama
dessa maneira
o manto se torna um vestido de casamento.
Louise Gluck
(tradução de Pedro Gonzaga)
abraçada nas árvores
pousio de gestos antigos
emparcelamento
de pequenas solidões
sem rosto.
Francisco Duarte Mangas (1960)
| esta foto não foi tirada por mim!- mas gosto muito dela.
(Mas o que é uma viagem
a não ser a união da miragem à impaciência...) E pensar que podíamos ter remado pescoços quebrados e pulsos em diligência Desenhar uma parábola perfeita com os nossos corpos encostados Fazer a trajetória da ínfima deslocação dos nossos gestos infinitamente repetidos E pensar que fintando as vagas poderíamos ter remado remar apenas para matar o tempo e escarnecer da morte |