terça-feira, 9 de agosto de 2022

O x do problema

 

(…) Os acontecimentos que surpreendem o homem foram todos vividos

 por outros homens antes dele. Todas as potencialidades humanas foram

experimentadas. Nada do que nos sucede na terra, por mais grave ou

 vantajoso que seja, é novo. Mas o que sentimos é sempre novo porque

 cada homem é único, como cada folha de uma mesma árvore é única. O

  homem partilha com outros homens a mesma seiva, mas é de modo

 diferente que se alimenta dela. Mesmo se o novo não é verdadeiramente

 novo, mantém-se sempre novo para aqueles que sem cessar vêm encalhar

 no mundo, geração após geração, vaga após vaga. (…)

                                           David Diop, Frère d’âme

                                                         (traduzido, do francês, por mim)






domingo, 7 de agosto de 2022

«Lullaby»

 

Canção de embalar

 

Descansa agora. Foram

demasiadas emoções.

 

O crepúsculo, depois a noitinha. No quarto

cintilam pirilampos, aqui, acolá, aqui, acolá,

e a funda doçura do Verão entra pela janela aberta.

 

Não penses mais nestas coisas.

Ouve-me a respirar, ouve-te a respirar

como os pirilampos, cada pequeno sopro

é um clarão onde aparece o mundo.

 

Já cantei muito para ti na noite de Verão.

Hei de conquistar-te, no final: o mundo não pode conceder-te

esta visão contínua.

 

Deves aprender a amar-me. Os humanos devem aprender a amar

o silêncio e o escuro.

 

Louise Gluck, EUA, 1943

(tradução de Ana Luísa Amaral)


sábado, 6 de agosto de 2022

O cálcio das estrelas

 Madalena: rectificar a história


ainda assim,

tentar


rectificar

o sol:


um agasalho

interno

para o coração


Ana Luísa Amaral, 1956- 2022

«Rosa Radioativa»




   Um pouco

 do que ainda temos.





 

segunda-feira, 25 de julho de 2022

Bósnia

As notícias misturam-se como agulhas

Despejadas no meu cérebro

Pela mão cega do comentador;

Tenho medo.

 Oito horas há em que as declarações cruéis

Se sucedem no meu recetor;

Muito alto, o sol brilha.

 

O céu está ligeiramente verde,

Como uma iluminação de piscina;

O café é amargo,

Em todo a parte se assassina;

O céu só ilumina ruínas.


Michel Houellebecq, França, 1956

(a tradução, do francês, foi feita por mim)



 

domingo, 24 de julho de 2022

"A canção da fome"

 

A canção da fome

 

Prezado senhor e rei,

Sabes a notícia grada?

Segunda comemos pouco,

Terça não comemos nada.

 

Quarta sofremos miséria,

E quinta passámos fome;

Na sexta quase nos fomos –

Não se aguenta quem não come!

 

Por isso vê se no sábado

Mandas cozer o pãozinho,

Senão no domingo, ó rei,

Vamos comer-te inteirinho!

 

Georg Weerth, Alemanha (1822-1856)

          (tradução de João Barrento)




sexta-feira, 1 de julho de 2022

Mar. Meio da manhã

 

Mar. Manhã

 

Parece ser um ente apenas

Este correr da onda do mar,

Como uma cobra que em serenas

Dobras se alongue a colear

 

Unido e vasto e interminável

No são sossego azul do sol,

Arfa com um mover-se estável

O oceano ébrio de arrebol.

 

Fernando Pessoa, (1888-1935)