sábado, 22 de abril de 2023

a liberdade de uma dieta pobre

 

Um casaco barato é proteção que chegue.

Eu, que me alimento das flores das Musas,

não serei escravo de nenhuma mesa.

Odeio a inanidade da riqueza, ama

dos aduladores. Não pedirei favores

a alguém sobranceiro. Conheço

a liberdade de uma dieta pobre.

 

Parmenion, in Antologia Grega (ou Palatina)

        (versão de José Alberto Oliveira)



segunda-feira, 10 de abril de 2023

Putos do bairro

 As poeiras… ratoeiras

 e o nariz sem funcionar

 na tua rua

 minh'alma nua

 o que dá gozo é falar

 os porcos dos corpos

 receio de empinar

 cão pisteiro longo treino

 para impuros apanhar 

 peões aos milhões

putos em transe a fumar

em quintais imaginados

o cão não há de ladrar 

quantas buscas

         arrobas

águas muy santas salobras

-quantas mentiras no ar-

lavam os bem-comportados

tanto medo no arremedo

quantas dúvidas pra contar


« Epílogo»

 

Epílogo

 

Conheço a utilidade da inutilidade.

E tenho a fortuna de não querer ser rico.

 

 Joan Brossa, Barcelona (1919-1998)



sábado, 1 de abril de 2023

Refugiados (ainda)

 Refugiados


Num alvorecer qualquer, a uma enseada sombria

eles chegam e a água vai embranquecendo

enquanto acostam e

se encostam na areia.

 

Adormecidos os seus corpos agitam-se,

os músculos dos homens sobretudo

continuam remando, puxando as cordas

na obscuridade.

 

Nem um sabe onde está.

Neste momento têm

a memória dos peixes,

e logo que os soldados se mostram

 

sobre um horizonte de cocos secos,

o grupo sobre a areia espera

ouvir o nome

do país aonde agora estão.

 

Mervyn Taylor, (Trinidad; sem dados)

 - a tradução foi feita por mim -

   



quarta-feira, 22 de março de 2023

poesia e primavera adiadas- requentadas não!



Se não existissem poetas, o que seria de nós?

Em clamor ou em amor

feitas do mundo consciência

suas mãos irrequietas traduzem a nossa voz

com medida ou impudência

seus versos como uma pauta

suportam a estesia

onde o feio o não é

ou se é… é ironia

as palavras que mergulham em contextos fulgurantes

enchem o branco de imagens deixam o peito a arfar

dão a ver outras paragens onde queremos tardar

e mesmo naquelas paisagens que julgámos conhecer

o que estava atrás vem à frente

ganha vida o que não tem:

atalhos pedras raízes difíceis de vislumbrar

um anjo desasado que mesmo assim quer voar

flores sílaba a sílaba que o sopro torna vivazes

e os frutos...que prazer -

Senhores d’anestesia vosso reino está no chão

pra comer é a poesia melopeia e paixão

ethos no meio do nada corpo nas ondas nu

que o corpo moderno um fantasma

morreu dum ataque de asma envolto num pano cru. 



sábado, 18 de março de 2023

Navio vivo

 

… E desejar

   era maior que tudo

  - o mais vivo navio

   para a viagem

 

Ana Luísa Amaral




domingo, 5 de março de 2023

«Decepção à regra»

 

Decepção à regra

 

Sentar-me e

ver os outros passar é o

meu exercício favorito. Entretém.

Não esgota.

É gratuito. Neste meu jogo-do-não

são os outros que passam

(é aos outros que reservo a tarefa

de passar). Lavo daí os pés.

Escrevo de dentro da vida.

Pode até parecer que assim não

chego a lugar algum mas também quem

é que quer ir

ao sítio dos outros?

 

João Luís Barreto Guimarães, 1967