domingo, 24 de novembro de 2013

Cores

Gosto do caminho da vida simples / por entre artemísias na bruma e grutas pedregosas/ O meu sentir selvagem distende-se e acalma/há muito companheiro das brancas nuvens ocioso/ Não desejo o caminho do mundo/ sua paixão não me atrai/ Á noite sento-me sozinho num leito de pedras/ a lua redonda sobe a Montanha Fria/ barcos fundindo sargaços na ria/ trevos rompendo ao nascer do dia
Han-Shan e Lu-Na, O vagabundo do Dharma (25 poemas)






Rochas





sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Em outros lugares-mais de meio século depois...

                                                                                                                                                               
Hoje, de um vulcão, nasceu mais uma ilha. A sul de Tóquio.
Há 50 anos, morria em Dallas «de morte matada», o presidente dos E.U.A. que concedera um número avultado de «vistos» a ilhéus em fuga de uma erupção vulcânica semelhante à que hoje ocorreu no Japão. Em sinal de reconhecimento, muitos desses refugiados mantêm viva, nas paredes de suas casas, a memória de J.F.Kennedy.
Há 51 anos e alguns meses mais, Norma Jean foi encontrada morta. Já se chamava Marilyn.

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Na morte de Marilyn



Morreu a mais bela mulher do mundo

tão bela que não só era assim bela

como mais que chamar-lhe marilyn

devíamos mas era reservar apenas para ela

o seco sóbrio simples nome de mulher

em vez de marilyn dizer mulher

Não havia no fundo em todo o mundo outra mulher

mas ingeriu demasiados barbitúricos

uma noite ao deitar-se quando se sentiu sozinha

ou suspeitou que tinha errado a vida

ela de quem a vida a bem dizer não era digna

e que exibia vida mesmo quando a suprimia

Não havia no mundo uma mulher mais bela mas

essa mulher um dia dispôs do direito

ao uso e ao abuso de ser bela

e decidiu de vez não mais o ser

nem doravante ser sequer mulher

O último dos rostos que mostrou era um rosto de dor

um rosto sem regresso mais que rosto mar

e toda a confusão e convulsão que nele possa caber

e toda a violência e voz que num restrito rosto

possa o máximo mar intensamente condensar

Tomou todos os tubos que tinha e não tinha

e disse à governanta não me acorde amanhã

estou cansada e necessito de dormir

estou cansada e é preciso eu descansar

Nunca ninguém foi tão amado como ela

nunca ninguém se viu envolto em semelhante escuridão

Era mulher era a mulher mais bela

mas não há coisa alguma que fazer se certo dia

a mão da solidão é pedra em nosso peito

Perto de marilyn havia aqueles comprimidos

seriam solução sentiu na mão a mãe

estava tão sozinha que pensou que a não amavam

que todos afinal a utilizavam

que viam por trás dela a mais comum imagem dela

a cara o corpo de mulher que urge adjectivar

mesmo que seja bela o adjectivo a empregar

que em vez de ver um todo se decida dissecar

analisar partir multiplicar em partes

Toda a mulher que era se sentiu toda sozinha

julgou que a não amavam todo o tempo como que parou

quis ser atá ao fim coisa que mexe coisa viva

um segundo bastou foi só estender a mão

e então o tempo sim foi coisa que passou.

Ruy Belo

Lisboa







quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Terra







Caminho de Santiago




Eis-me aqui de concha e cajado

peregrino em busca das palavras

do velho falar que quero falado.



Tomo-as na concha breves vagas

rasgo-as no terreiro

na ponta do bordão caminheiro

indefesas maduras inquietas

rezando a imaculada heresia

da buliçosa gramática dos poetas:

Manuel Maria, Celso Emílio, Rosalia…



Vasco Pereira da Costa, Terras

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Cidade 2




Da janela do barco




Tomou um long drink

cinzento e baço

sobre um globo de navegar

e pousou com as duas mãos

o copo de aço em cima

de um qualquer mar e



depois foi à janela do barco só olhar

para a cidade ao longe que acendia

as primeiras luzes da noite

fixou os olhos num postigo minúsculo

a visão arguta de marinheiro secular

adivinhou a costureira do príncipe feliz

e tirou um diamante cravado no

seu corpo à nascença repensou oscar

wilde recitou um poema de cor

duas três ou quatro vezes

e sentiu no rosto a bandeira agridoce

da impossibilidade de amar

e partiu por achar que assim era melhor



António Ferra, Com a cidade no corpo