sexta-feira, 11 de abril de 2014
quinta-feira, 10 de abril de 2014
Observar calorosamente
Poema visto no ventilador de um motel
Está um calor infernal.
Ligo o ventilador
e as pás põem-se a
girar lentamente.
Um vento suave
desloca-se imediatamente
e as cortinas desatam
a bailar.
O centro do ventilador
é um espelho convexo,
um olho de peixe,
um capacete dourado.
É lá que vibram os reflexos
com o motor a ronronar,
mas não mudam de lugar.
Aumento a velocidade e as pás giram
até se tornarem invisíveis quase
-uma esbranquiçada gaze-
mas os reflexos no centro
são os mesmos.
Assim acontecerá com tudo-digo de mim para mim-
as superfícies movem-se a grande velocidade
mas as formas que
elas refletem não.
Passam os indivíduos de uma espécie
mas a espécie não fenece.
Passam os homens de um povo,
mas o povo continua.
Todos os poetas passam
a poesia, porém, permanece.
Os nossos pensamentos passam,
mas algo, ou alguém,
observa.
Continua a observar.
Alberto Blanco (n. México, 1951)- a tradução é da minha lavra, embora existam outras- que não consultei.
Nota: para A.B., o sentido da poesia “tiene que ver
con la capacidad de mantener un estado de observación tan alerta y tan atento
que permita captar todas las variaciones de lo que sucede a la velocidad
vertiginosa de lo real”.
quarta-feira, 9 de abril de 2014
Medeia
MEDEIA
(Lugar
baixo, rancor surdo, tremenda
raiva- o
despeito da mulher
ao centro e
o sensato coro atrás)
Diz-se que matou o próprio irmão,
que descende do Sol e solo bárbaro,
e que, deslumbrada por jovem prático
e pouco espiritual, lhe deu
um animal de lã dourada. Ele
porém ainda quis um trono, outro
matrimónio e o mando dum país.
Quando uma feiticeira chora invoca
demónios que invocam malefícios.
O escritor, atento ao móbil, fixa
os joelhos da semideusa mágica
e empático pinta-lhe na boca
a palavra trágica: eu nada quis
para mim, por ti só tudo fiz.
E o mundo entretém no seu decurso
o público. Do crime participa
quem dele tira prémio ou espanto-
E o pranto corre a cada livre gesto
e o excesso com que sofre nos consola
o sobressalto. E o manto que tece
sufoca em chamas e excita deveras
o sangue a correr e a carne a arder.
Resta um par de cadáveres infantis
aos pés do pai: o céu está vazio
e ninguém saiu ainda da sala.
Para concluir o acto o génio
declara solene que ali se ama
e mata sobre a cena. Não mais
discursos. Inclina-se e repousa
a pena com a ponta de veneno.
Margarida Vale de Gato, Mulher
ao mar
A lenda de Medeia tem sido o entrecho de obras literárias tão diferentes e distantes no tempo quanto as de Ovídio e Hélia Correia, Eurípedes e Christa Wolf, Séneca e Heiner Muller, Ésquilo e Corneille ... uma ópera, composta por Luigi Cherubini, também faz parte do rol.
Acabo de ler o poema da Margarida, que transcrevi por me ter parecido uma reflexão, quiçá autobiográfica porque sábia e empenhada, sobre a representação masculina desta figura trágica da mitologia que dramaturgos variados ensaiaram.
terça-feira, 8 de abril de 2014
segunda-feira, 7 de abril de 2014
Mulheres-vistas por portugueses- e o seu discurso.
MNAC
A língua das mulheres
tradição oral- cultura
celta(galês)
Eu li num livro que o discurso do mundo
Tem oito partes.
E li também que as mulheres repartem
Sete das oito à sua conta.
O meu desejo é que lhes faça
Mui bom proveito!
(sec.XVII)
Trad: José
Domingos Morais
domingo, 6 de abril de 2014
sexta-feira, 4 de abril de 2014
Assombro
em nome de
novos deuses variados, amor e revolução passam de boca em mão.
LI
«Que manhã esta!
ardente como o entusiasmo dos tambores.
Onde tudo o que há de profundo nas raízes da floresta
se descobre em flores.»
José Gomes Ferreira
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