quinta-feira, 10 de abril de 2014

Observar calorosamente


Poema visto no ventilador de um motel

 Está um calor infernal.
 Ligo o ventilador
 e as pás põem-se a girar lentamente.
 Um vento suave desloca-se imediatamente
 e as cortinas desatam a bailar.

O centro do ventilador
é um espelho convexo,
um olho de peixe,
um capacete dourado.
É lá que vibram os reflexos
com o motor a ronronar,
mas não mudam de lugar.

Aumento a velocidade e as pás giram
até se tornarem invisíveis quase
-uma esbranquiçada gaze-
mas os reflexos no centro
são os mesmos.

Assim acontecerá com tudo-digo de mim para mim-
as superfícies movem-se a grande velocidade
 mas as formas que elas refletem não.

Passam os indivíduos de uma espécie
mas a espécie não fenece.

Passam os homens de um povo,
mas o povo continua.

Todos os poetas passam
a poesia, porém, permanece.

Os nossos pensamentos passam,
mas algo, ou alguém,
observa.
Continua a observar.

Alberto Blanco (n. México, 1951)- a tradução é da minha lavra, embora existam outras- que não consultei.


Nota: para A.B., o sentido da poesia “tiene que ver con la capacidad de mantener un estado de observación tan alerta y tan atento que permita captar todas las variaciones de lo que sucede a la velocidad vertiginosa de lo real”.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Medeia


MEDEIA
(Lugar baixo, rancor surdo, tremenda
raiva- o despeito da mulher
ao centro e o sensato coro atrás)

Diz-se que matou o próprio irmão,
que descende do Sol e solo bárbaro,
e que, deslumbrada por jovem prático
e pouco espiritual, lhe deu
um animal de lã dourada. Ele
porém ainda quis um trono, outro
matrimónio e o mando dum país.

Quando uma feiticeira chora invoca
demónios que invocam malefícios.
O escritor, atento ao móbil, fixa
os joelhos da semideusa mágica
e empático pinta-lhe na boca
a palavra trágica: eu nada quis
para mim, por ti só tudo fiz.

E o mundo entretém no seu decurso
o público. Do crime participa
quem dele tira prémio ou espanto-
E o pranto corre a cada livre gesto
e o excesso com que sofre nos consola
o sobressalto. E o manto que tece
sufoca em chamas e excita deveras
o sangue a correr e a carne a arder.

Resta um par de cadáveres infantis
aos pés do pai: o céu está vazio
e ninguém saiu ainda da sala.
Para concluir o acto o génio
declara solene que ali se ama
e mata sobre a cena. Não mais
discursos. Inclina-se e repousa

a pena com a ponta de veneno.


Margarida Vale de Gato, Mulher ao mar



A lenda de Medeia tem sido o entrecho de obras literárias tão diferentes e distantes no tempo quanto as de Ovídio e Hélia Correia, Eurípedes e Christa Wolf, Séneca e Heiner Muller, Ésquilo e Corneille ... uma ópera, composta por Luigi Cherubini, também faz parte do rol. 
 Acabo de ler o poema da Margarida, que transcrevi por me ter parecido uma reflexão, quiçá autobiográfica porque sábia e empenhada, sobre a representação masculina desta figura trágica da mitologia que dramaturgos variados ensaiaram. 



segunda-feira, 7 de abril de 2014

Mulheres-vistas por portugueses- e o seu discurso.

Séc. XIX-XX



MNAC
















A língua das mulheres
tradição oral- cultura celta(galês)

Eu li num livro que o discurso do mundo
Tem oito partes.
E li também que as mulheres repartem
Sete das oito à sua conta.

O meu desejo é que lhes faça
Mui bom proveito!
          (sec.XVII)

Trad: José Domingos Morais

domingo, 6 de abril de 2014

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Assombro

 derrotados 
em nome de 
                          novos                                                                            deuses variados, amor e revolução passam                                                                                  de boca em mão.


LI
«Que manhã esta!
ardente como o entusiasmo dos tambores.
Onde tudo o que há de profundo nas raízes da floresta
se descobre em flores.»

José Gomes Ferreira