sábado, 10 de maio de 2014

Encontros inesperados


 Instalação inusitada num canto amontoada
-objectos cujosons para sempre se
extinguiram;
na aldeia despontam
urbanas
as flores da buganvília

 manhã a meio: um homem
  de nome Luz
 oferece-me água;
 à beira de uma mulher
de apelido Alegria
almocei.

Coisas e pessoas:
coisas tornadas pessoais
E antes da noite chegar
 prestes estava
              a voar.




sexta-feira, 9 de maio de 2014

Berdianu e poetas

Marítima

Havia perto do mar uma casa
por cujas janelas entravam veleiros
de velas multicoloridas
às vezes simples de tão brancas
Dentro da casa alguém contava histórias
-Há sempre um cabo-verdiano
de costas para o mar sonhando


                  José Vicente Lopes




História verdadeira de Eva

No céu da tua boca
Há um paraíso expulso
(com um serpentário
Metamorfoseado em sombra)
Em baixo cobre-te a nudez
Uma Maçã

Valdemar Valentino Velhinho Rodrigues

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Mirabilis -Dhalmada


Casa di pobri

Quáto paredi saquédo
di pedra nú
padja cana stendêdo riba cumêra
pâ tádja sol
cinco metro di comprido
três di largura
um stêrado na meio
pa tem um «sala»
na parede um fodja jornal
pa dal finura
na cantunêra um candêro di vidro
di civilizaçon
na cantu casa um tamboro midjo
pa mostra nhôs.
Num banda casa mi cu nha mudjer tâ fazê fidjo
na queloto banda
nôs cinco fidjo (três matcho, dôs fémea)
ta ronca sono
na batente porta
«piloto» ta spanta finado
baxo mesa nôs galo
ta cordano pâ trabadjo.


David Hopffer C. Almada in Mirabilis de veias ao sol



quarta-feira, 7 de maio de 2014

Universos raianos- Bau


Minha omnipotência

Engulo tanto mundo
Tantas humanidades
 Mas não me consigo saciar.

 Mastigo dor e cuspo alegria
 Recebo desespero e dou esperança
 Inspiro ódio e expiro amor
 Morro e sei de novo viver.

 Dentro de mim há um enorme universo
 Onde me movo e me iludo à vontade
 E se algum dia
 Aparecer um deus a pôr aí o dedo
 Dar-lhe-ei a morte prematura

Alberto Lopes in  Mirabilis de veias ao sol, Antologia dos novíssimos poetas cabo-verdianos, 1998


                                                                                         Como os ciganos
 gosto dos caminhos para o sul
Onde passa o cigano e a rola bComoos ciganos entre sul e viagemdo outro nos somos de out
Nosso amor é  desaC
E todos os amantes são raianos
Como os ciganos de passagem
Como os ciganos















Eu gosto dos caminhos para o sul
Onde passa o cigano e a rola brava

 Como os ciganos entre sul e viagem
  do outro lado do rio

 Como os ciganos  somos de outra margem
 Nosso amor é de bala e desafio

 E todos os amantes são raianos
Como os ciganos de passagem
 Como os ciganos


Manuel Alegre

domingo, 4 de maio de 2014

Dois dias como 2 rosas

Gazéis

....2

Senta-te na primavera e bebe
um copo de vinho. De tudo te olvida
Dez dias como dez rosas     eis
aquilo a que se resume a nossa vida (... 1/7)

Hafiz, Pérsia, Séc.XIV d.C.



quinta-feira, 1 de maio de 2014

Incipit






Pela manhã limpei a caliça que caiu da chaminé, empurrada por ventos agora quentes,
cortei em fatias o pão de ontem que partilhei com os pombos das rochas no exílio;
 depois saí e reli o Génesis 1-3 debaixo de um amplo guarda-sol, bebendo um porto branco bem seco.
 Pensei ir ao desfile, mas possuída por flores mil, iniciei já em casa outra leitura de sentido contrário ao mito da criação e, de pés nus, caminho para o sono neste dia mundial do trabalhador.