quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Humanos e marítimos divagando


 Human
 beings do

something, therefore
the world in
general

Keith Waldrop, The Space of Half an Hour




Divagação

Então cortaram a nuvem em três,
E o meu sangue correu em tripla nuvem,
Eram dois marinheiros, esse rosto de mulher
Furtado a Van Gogh…ah ah!

Do tamanho do meu punho era mesmo assim esse rosto,
Vi-o com os meus olhos, isso posso eu jurar,
Havia estrelas, tínhamos bebido, sabes,
Essa taberna, qual é ? Ah ah!

Ah sim, é a taberna do Ali, esta mesa,
Não a posso carregar sozinho. Uma vez, era miúdo,
Balançava-me na ponta de uma corda, e o mastro
Na ponte do navio está no lugar dela, ah ah!

Eram dois marinheiros, roubados a Van Gogh,
O rosto da mulher fugia, e eu corri…
Sabes, o amor e eu, somos dois na vida,
Excepto ela, mas ela, ela não conta, não contará, ah ah!


Djemal Sureya (Turquia, 1927 - ?) - traduzi, do francês.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Jardins




O último jardim

Louvado seja o primeiro jardim,
o esplendor perdido, que um ciclope
de massacres e de bombas contempla.

Louvor ao anjo negro:
último veículo invocado pelo século
para voltar como loucos ao jardim inicial.

Será a árvore do vício e do abuso.
Não seremos assim tantos,
de nós só um disponibilizará a sua costela
para criar, a partir do último jardim de asfalto
o novo jardim dos mais velhos.


Myriam Moscona (México, 1955), Último jardin 
                                  -traduzido por mim-

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Tons



melancólicos os tons são deliberadamente em prata oiço
as cordas contra o violoncelo oiço a harpa os tons escolhidos
São o que são o que pincela com tinta a margem dos
corpos Como um país Como a chuva de um país Como a
chuva da harpa contra o violoncelo

Myriam Moscona, Negro Marfil:primera parte
                                 ( a tradução é minha) 



Bárbara solução




À espera dos Bárbaros

O que esperamos nós em multidão no Forum?
Os Bárbaros, que chegam hoje.
Dentro do Senado, porque tanta inacção?
Se não estão legislando, que fazem lá dentro os senadores?

É que os Bárbaros chegam hoje.
Que leis haveriam de fazer agora os senadores?
Os Bárbaros, quando vierem, ditarão as leis.

Porque é que o Imperador se levantou de manhã cedo?
E às portas da cidade está sentado,
no seu trono, com toda a pompa, de coroa na cabeça?

Porque os Bárbaros chegam hoje.
E o Imperador está à espera do seu Chefe
para recebê-lo. E até já preparou
um discurso de boas-vindas, em que pôs,
dirigidos a ele, toda a casta de títulos.

E porque saíram os dois Cônsules, e os Pretores,
hoje, de toga vermelha, as suas togas bordadas?
E porque levavam braceletes, e tantas ametistas,
e os dedos cheios de anéis de esmeraldas magníficas?
E porque levavam hoje os preciosos bastões,
com pegas de prata e as pontas de ouro em filigrana?

Porque os Bárbaros chegam hoje,
e coisas dessas maravilham os Bárbaros.

E porque não vieram hoje aqui, como é costume, os oradores
para discursar, para dizer o que eles sabem dizer?

Porque os Bárbaros é hoje que aparecem,
e aborrecem-se com eloquências e retóricas.

Porque, subitamente, começa um mal-estar,
e esta confusão? Como os rostos se tornaram sérios!
E porque se esvaziam tão depressa as ruas e as praças,
e todos voltam para casa tão apreensivos?

Porque a noite caiu e os Bárbaros não vieram.
E umas pessoas que chegaram da fronteira
dizem que não há lá sinal de Bárbaros.

E agora, que vai ser de nós sem os Bárbaros?
Essa gente era uma espécie de solução.



Konstantinos Kaváfis (tradução de Jorge de Sena)

domingo, 7 de setembro de 2014

Coisas improváveis





                                 Com o seu espanto vêm
                        As coisas às mãos imaginantes


                                      Manuel Gusmão, Dois sóis, A Rosa…