segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Caminhos intransitáveis





(...). Confesso que 
muitas vezes, pensando no horror de tantos séculos 
de opressão e crueldade, hesito por momentos 
e uma amargura me submerge inconsolável. 
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam, 
quem ressuscita esses milhões, quem restitui 
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?

Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes 
aquele instante que não viveram, aquele objecto 
que não fruíram, aquele gesto 
de amor, que fariam «amanhã». (...)

(...). Mas também aconteceu 
e acontece que não foram mortos. 
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer, 
aniquilando mansamente, delicadamente, 
por ínvios caminhos, quais se diz que são ínvios os                                                                     de Deus.(...)
Excertos de Carta a meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya, de Jorge de Sena.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Num mundo diferente

The Company of Trees

 There is no king in their country
 and there is no queen
 and there are no princes vying for power
 inventing corruption.
 Just as with us many children are born
 and some will live and some will die and the country
 will continue.

 The weather will always be important.

 And there will always be room for the weak, the violets
 and the bloodroot.
 When it is cold they will be given blankets of leaves.
 When it is hot they will be given shade.

 And not out of guilt, neither for a year-end deduction
 but maybe for the cheer of their colors, their
 small flower faces.

 They are not like us.

 Some will perish to become houses or barns,
 fences and bridges.
 Others will endure past the counting of years.
 did not work well enough, was only an early stage.
 Neither do they ever have any questions to the gods—
 And none will ever speak a single word of complaint,
 as though language, after all,
 which one is the real one, and what is the plan.
 As though they have been told everything already,
 and are content.

 Mary Oliver, in BLUE HORSES (New York: Penguin, 2014)


quinta-feira, 27 de novembro de 2014

«O saber não ocupa lugar»







"La soledad es el hecho más profundo de la condición humana. El hombre es el único ser que sabe que está solo."- Octavio Paz

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Luzes

SINTONIA PARA PRESSA E PRESSÁGIO 
 
Escrevia no espaço.
Hoje, grafo no tempo,
na pele, na palma, na pétala,
luz do momento.
Sôo na dúvida que separa
o silêncio de quem grita
do escândalo que cala,
no tempo, distância, praça,
que a pausa, asa, leva
para ir do percalço ao espasmo.

Eis a voz, eis o deus, eis a fala,
eis que a luz se acendeu na casa
e não cabe mais na sala.



 Paulo Leminski , Brasil (1944-1989).




segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Lisboa posta em desassossego



     Por entre a casaria, em intercalações de luz e sombra – ou, antes, de luz e de menos luz – a manhã desata-se sobre a cidade. Parece que não vem do sol mas da cidade, e que é dos muros e dos telhados que a luz do alto se desprende – não deles fisicamente, mas deles por estarem ali.
                Sinto, ao senti-la, uma grande esperança; mas reconheço que a esperança é  literária. Manhã, primavera, esperança – estão ligados em música pela mesma intenção melódica; estão ligados na alma pela mesma memória de uma igual intenção. (…..)
                        Lembro-me de repente de quando era criança e via, como hoje não posso ver, a manhã raiar sobre a cidade. Ela então não raiava para mim, mas para a vida, porque então eu (não sendo consciente) era a vida. Via a manhã, e tenho alegria; hoje vejo a manhã, e tenho alegria, e fico triste. A criança ficou mas emudeceu. Vejo como via, mas por trás dos olhos vejo-me vendo; e só com isto se me obscurece o sol e o verde das árvores é velho e as flores murcham antes de aparecidas. Sim, outrora eu era de aqui; hoje, a cada paisagem, nova para mim que seja, regresso estrangeiro, hóspede e peregrino da sua presentação, forasteiro do que vejo e ouço, velho de mim.

                        Fernando Pessoa, Livro do Desassossego, de Bernardo Soares, Ed. Assírio e Alvim 


domingo, 23 de novembro de 2014

Elogio do que nos falta


«Tentaram enterrar-nos. Não sabiam que somos sementes.»- provérbio mexicano.














In Praise of What is Missing

When a tooth is extracted,
some side of the holy wheel is unnotched,
And twists, unlike Ixion’s, in the wind and weather,
And one slips into wanting nothing more
from the human world,
And leans back, a drifting cloud,
Toward what becomes vacant and is nameless and is blue,

As days once were, and will be again.

Charles Wright, uma vez mais.

sábado, 22 de novembro de 2014

«en un sueño que no es sueño, sino pesadilla»

Sueño con un tren

Sueño que me levantes todos los días para llevarme a la escuela,
……….que mis hermanos sean felices,
……….que nunca falte el alimento,
……….que diciembre sea motivo de reunión y no de trabajo,
……….que mis ropas no sean usadas, que te compres un bolso y unas zapatillas,
[madre.

También sueño con mi abuela, con sus jornadas laborales frente a un mostrador,
con sus piernas cansadas y la mirada perdida.

También sueño con mis dientes caídos, con la espera del ratón y su moneda,
pero solo queda esta movilidad en una cama de metal,
en un sueño que no es sueño, sino pesadilla.

En un movimiento que nos arrastra a un futuro que no habremos de alcanzar,
o quizás sea el sueño de algún francotirador al otro lado del muro,
esperando paciente nuestra llegada.

Pero aquí estamos, tu y yo, y mis hermanos y mi abuela, y mis vecinos

y el movimiento de este tren que sigue en sus pasos, hasta que un día se detenga este sueño y despertemos.

      Miguel Córdova Colomé, México,1990

Fotografia de P F