domingo, 4 de janeiro de 2015

Ainda não... (Ah!)


Ainda não
não há dinheiro para partir de vez
não há espaço de mais para ficar
ainda não se pode abrir uma veia
e morrer antes de alguém chegar

ainda não há uma flor na boca
para os poetas que estão aqui de passagem
e outra escarlate na alma
                                                         para os postos à margem

ainda não há nada no pulmão direito
ainda não se respira como devia ser
ainda não é por isso que choramos às vezes 
e que outras somos heróis a valer

ainda não é a pátria que é uma maçada
nem estar deste lado que custa a cabeça
ainda não há uma escada e outra escada depois
para descer à frente de quem quer que desça

ainda não há camas só para pesadelos
ainda não se ama só no chão
ainda não há uma granada
ainda não há um coração

António José Forte, 6/2/1931-15/12/1988

sábado, 3 de janeiro de 2015

Alentejo: o «Cante»

Cante Alentejano

Nunca senti necessidade de fabricar um currículo nem de ter um cartão de visita.
No verão passado apareceu-me o desejo de fazer um cartão em que constasse: foi membro de um Concurso de Cantares Alentejanos realizado em Beja em 1986.
Não me lembro de algo que me tenha dado tanto prazer como esse convite, para tarefa de tanta responsabilidade. Engolidos os últimos pruridos de consciência, e escorando-me na ideia que o principal era ter sensibilidade à poesia alentejana e às vozes que a cantam, lá fui.
Como fazia frio nessa noite em Beja.
Muita gente enchia as ruas. Foram vinte e tal grupos desfilando. Muitos membros do júri tremiam com aquele vento norte.
Das quatro notas máximas que atribuí, três corresponderam aos três primeiros lugares. Senti- -me perdoado.
Dissera-me o médico que eu tinha um coração forte. Tirei a prova: fui capaz de continuar vivo após ter ouvido vinte e tal grupos corais alentejanos.
Perdi-me do autocarro, e como pacífica lua viajava, e como a magia que há pouco inundara as ruas levaria muito tempo a passar, e como desejava ver a planície sob essa lua, pus-me a pé, estrada fora, de volta a Odemira. Não chegaria a pé, o autocarro apanhou-me em Aljustrel, tendo chegado ali numa carrinha que andava à procura do Grupo dos Mineiros, do qual também se perdera.


Deodato Santos, O Eco, (Crónicas Alentejanas), Associação de Municípios do Distrito de Beja,1989




sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Olhar

XXI
Sombra
Fruto maduro
Para rilhar
Com os caninos
De olhar.

Marta 

Bernardes, Claviculária

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

A Sombra e Branca brincalhona


A Sombra
É pequena de mais para ser um bêbado dormindo.
É uma sombra na rua que não é costume estar naquele lugar.
Embora saiba que nesta rua as sombras são autónomas.
Desço e dirijo-me para lá agarrando-me às paredes. É a cabeça de um cavalo de olhos abertos.

A Solidão
A solidão movendo o espaço como a vela do moinho, moendo o tempo como as suas mós, mastigando a vida como o moleiro o palito entre os dentes: era branca: como a farinha como a parte visível dos seios da neta do moleiro tomando banho no litoral, ou ainda branca como a erótica espuma que a lambia.
Montava serenamente um burro, dirigia sem palpitações o seu olhar sobre o que havia: que era diverso e eterno: e para não ser denunciada vestia-se como noiva:
   a solidão brincando de enganar-se a si própria.
 
Deodato Santos, O Eco, 1989

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

O desejo à sombra

«…Os que reprimem o desejo fazem-no porque o deles é suficientemente fraco para ser reprimido; e o elemento repressivo ou Razão usurpa então o lugar do desejo e rege quem não tem força de vontade e que, ao ser reprimido, se torna gradualmente passivo até não ser mais que a sombra do desejo …» in  A união do Céu e do Inferno, W. Blake.