terça-feira, 6 de janeiro de 2015
segunda-feira, 5 de janeiro de 2015
domingo, 4 de janeiro de 2015
Ainda não... (Ah!)
não há dinheiro para partir de vez
não há espaço de mais para ficar
ainda não se pode abrir uma veia
e morrer antes de alguém chegar
ainda não há uma flor na boca
para os poetas que estão aqui de passagem
e outra escarlate na alma
para os postos à margem
ainda não há nada no pulmão direito
ainda não se respira como devia ser
ainda não é por isso que choramos às vezes
e que outras somos heróis a valer
ainda não é a pátria que é uma maçada
nem estar deste lado que custa a cabeça
ainda não há uma escada e outra escada depois
para descer à frente de quem quer que desça
ainda não há camas só para pesadelos
ainda não se ama só no chão
ainda não há uma granada
ainda não há um coração
António José
Forte,
6/2/1931-15/12/1988
sábado, 3 de janeiro de 2015
Alentejo: o «Cante»
Cante Alentejano
Nunca senti necessidade de fabricar um currículo nem de ter
um cartão de visita.
No verão passado apareceu-me o desejo de fazer um cartão em
que constasse: foi membro de um Concurso de Cantares Alentejanos realizado em
Beja em 1986.
Não me lembro de algo que me tenha dado tanto prazer como
esse convite, para tarefa de tanta responsabilidade. Engolidos os últimos
pruridos de consciência, e escorando-me na ideia que o principal era ter
sensibilidade à poesia alentejana e às vozes que a cantam, lá fui.
Como fazia frio nessa noite em Beja.
Muita gente enchia as ruas. Foram vinte e tal grupos
desfilando. Muitos membros do júri tremiam com aquele vento norte.
Das quatro notas máximas que atribuí, três corresponderam
aos três primeiros lugares. Senti- -me perdoado.
Dissera-me o médico que eu tinha um coração forte. Tirei a
prova: fui capaz de continuar vivo após ter ouvido vinte e tal grupos corais
alentejanos.
Perdi-me do autocarro, e como pacífica lua viajava, e como a
magia que há pouco inundara as ruas levaria muito tempo a passar, e como
desejava ver a planície sob essa lua, pus-me a pé, estrada fora, de volta a
Odemira. Não chegaria a pé, o autocarro apanhou-me em Aljustrel, tendo chegado
ali numa carrinha que andava à procura do Grupo dos Mineiros, do qual também se
perdera.
Deodato Santos, O Eco, (Crónicas Alentejanas), Associação de
Municípios do Distrito de Beja,1989
sexta-feira, 2 de janeiro de 2015
quarta-feira, 31 de dezembro de 2014
A Sombra e Branca brincalhona
A Sombra
É pequena de mais para ser um bêbado dormindo.
É uma sombra na rua que não é costume estar naquele lugar.
Embora saiba que nesta rua as sombras são autónomas.
Desço e dirijo-me para lá agarrando-me às paredes. É a
cabeça de um cavalo de olhos abertos.
A Solidão
A solidão movendo o espaço como a vela do moinho, moendo o
tempo como as suas mós, mastigando a vida como o moleiro o palito entre os
dentes: era branca: como a farinha como a parte visível dos seios da neta do
moleiro tomando banho no litoral, ou ainda branca como a erótica espuma que a
lambia.
Montava serenamente um burro, dirigia sem palpitações o seu
olhar sobre o que havia: que era diverso e eterno: e para não ser denunciada
vestia-se como noiva:
a solidão brincando
de enganar-se a si própria.
Deodato Santos, O Eco, 1989
terça-feira, 30 de dezembro de 2014
O desejo à sombra
«…Os que reprimem o desejo fazem-no porque o deles é
suficientemente fraco para ser reprimido; e o elemento repressivo ou Razão
usurpa então o lugar do desejo e rege quem não tem força de vontade e que, ao
ser reprimido, se torna gradualmente passivo até não ser mais que a sombra do
desejo …» in A união do Céu e do
Inferno, W. Blake.
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