quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Ailleurs: quase inverno






Paul Celan

Ele escreve com os seus dedos em direção à tua boca.
Vê lodo debaixo da luz, árvores mordidas pelo vento,

vê erva que ainda sobrevive a esta hora,
a página endurecida como um campo queimado:

suspira. As palavras deixam um sabor a solo
nos seus lábios.


Ilyá Kamínsky (Ucrânia, 1977)- traduzido por mim, do espanhol.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Antecipar

Fotografia tirada por P.F


Love poem

Ultimately, we will lose each other
to something.I would hope for grand
circumstance — death or disaster.
But it might not be that way at all.
It might be that you walk out
one morning after making love
to buy cigarettes, and never return,
or I fall in love with another man.
It might be a slow drift into indifference.
Either way, we’ll have to learn
to bear the weight of the eventuality
that we will lose each other to something.
So why not begin now, while your head
rests like a perfect moon in my lap,
and the dogs on the beach are howling?
Why not reach for the seam in this South Indian
night and tear it, just a little, so the falling
can begin? Because later, when we cross
each other on the streets, and are forced
to look away, when we’ve thrown
the disregarded pieces of our togetherness
into bedroom drawers and the smell
of our bodies is disappearing like the sweet
decay of lilies — what will we call it,
when it’s no longer love?


Tishani Doschi, Índia (1975)

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

«Religando»

Fotografia da Undine

Religião

A última coisa que a velha cadela trouxe para casa
das peregrinações que fez pelo bosque
foi um sapato de homem, um negro mas reluzente sapato ponta-de-asa.

Comecei por recear que dentro dele houvesse um pé.
Mas não, era simplesmente um sapato
 ainda que obviamente usado; todavia,

como a boca da retriever,
 treinada para recolher patos e gansos, era suave,
 o sapato continuava em bom estado.

Eu poderia tê-lo dado
a um amigo sem perna
mas todos eles usavam já próteses,

 ali estava então. Resgatado ou roubado
 um estranho sapato . Porém nos últimos meses
 de vida da cadela, eu notei

como o sapato se tornara quase um amigo
 algo para ficar perto ou dormir em cima
e que ela farejava sempre que passava,

 parecendo assim certificar-se de que,
na sua ausência, aquele misterioso, familiar,

  pé desaparecido, não tinha regressado.

Robert Wrigley, EUA, (1951)-  tradução feita por mim, hoje.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Têmpera


 Templa
El sitio del color:
Licua
Se desmorona
La piedra porosa absorbe Alumbra
Tension sobre el lugar El tezontle rojo y negro nos da su ligereza
Figura sonido un arabesco
Quema (dice)
Entran las cuerdas del arpa al corazon

Myriam Moscona, (México), Negro marfil: 1ªparte

Têmpera
O sítio da cor:
 Liquesce
 Desfaz-se
A pedra porosa absorve. Ilumina
Tensão no lugar. Vermelha e negra a rocha vulcânica dá-nos a sua leveza                                                                                  
Figura som um arabesco
Queima (diz)
Entram as cordas da harpa no coração

                            (traduzido por mim)

domingo, 2 de novembro de 2014

Mistérios gozosos



Primer mistério gozoso


Yo no fumaba
pero un día San Gabriel Arcángel,
poniendo las manos en mis hombres,
acercó su rostro a mi oído derecho
y dijo:
-Fuma,
dale humo al reino del Señor
y que nadie
advierta su presencia.


Jair Cortés, México, (1977)

sábado, 1 de novembro de 2014

« De boca em boca»: Corta-Jaca

«De bouche à l'oreille», «usar o telefone árabe», etc. são formas de comunicar consideradas hoje um pouco obsoletas, mas cujo resultado, no presente caso, delicia vista e ouvido, faz crescer água na boca e movimentar cabecinha e corpinho...
Ouçamos o que a cantora nos conta e como canta para nós: ei-la,  Mlle Lysia Condé



Irresistível e instrutivo, né?
- e até um morto se levantaria, atrevo-me a dizê-lo...