terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Séferis

Para a poesia não existem nem grandes nem pequenos países. O seu domínio é no coração de todos os homens.

CALLIGRAPHY

Sails on the Nile,
songless birds with one wing
searching silently for the other;
groping in the sky's absence
for the body of a marble youth;
inscribing on the blue with invisible ink
a desperate cry.


 ( tradução: Edmund Keeley e Philip Sherrard )

Just a little more

Just a little more
And we shall see the almond trees in blossom
The marbles shining in the sun
The sea, the curling waves.
Just a little more
Let us rise just a little higher.

( tradução de Rex Warner )

Giórgos Séferis, Grécia (1900-1971)


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Viajar...

Viagem ao Egipto (excertos)

Na hesitante vibração dessa noite de inverno, o pedestal do obelisco fora encoberto por hieróglifos de incerta proveniência; em vão a pirâmide procuraria o sol, ou a curiosidade de viandantes e circunstantes um Champollion capaz de decifrá-los.

 Perto da menina Vitória que segurava na mão uma coroa de louros, falando distraidamente com Carlos e já virados a norte, notei que vos encontráveis. Mais a sul, fugindo de  ajuntamentos, estava eu, almejando acercar-me da Liberdade e saborear  igualmente a minha independência- sem grande alarido.(...)
















quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Vêem melhor- a qualquer hora

Vêm agora
 
Empoleirados em camiões.
O único contacto
Com a terra
É quando saltam
Para a pisar.
 
Têm um coração
Que deve ser cego,
Por isso amparam-se
A uma espingarda,
Como os cegos
A uma bengala.
 
Caminham dos pés à cabeça
Carregando com a morte:
São muitos
Os que tropeçam já
Num sulco de terra.
 
Esses
Não tornarão a ver
O disco da aurora.
Outros se seguirão,
Um a um.
 
Esta
É a palavra
 
Dum coração que vê.


Alberto Pimenta (26/12/1937)

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Correspondances
















Correspondances

La Nature est un temple où de vivants piliers
Laissent parfois sortir de confuses paroles;
L'homme y passe à travers des forêts de symboles
Qui l'observent avec des regards familiers.

Comme de longs échos qui de loin se confondent
Dans une ténébreuse et profonde unité,
Vaste comme la nuit et comme la clarté,
Les parfums, les couleurs et les sons se répondent.

II est des parfums frais comme des chairs d'enfants,
Doux comme les hautbois, verts comme les prairies,
— Et d'autres, corrompus, riches et triomphants,

Ayant l'expansion des choses infinies,
Comme l'ambre, le musc, le benjoin et l'encens,
Qui chantent les transports de l'esprit et des sens.


Charles Baudelaire, França, Les fleurs du mal

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Língua-variações

Salette Tavares
LÍNGUA PORTUGUESA

Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela
Amo-te assim, desconhecida e obscura
Tuba de algo clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela,
E o arrolo da saudade e da ternura!
Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
                 Amo-te, ó rude e doloroso idioma,
                                           Em que da voz materna ouvi: "meu filho!",
                                           E em que Camões chorou, no exílio amargo, 
                                           O gênio sem ventura e o amor sem brilho!
 


                                      Olavo Bilac, Brasil, (16/12/1865-28/12/1918).

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Chuvas



Chove muito, chove excessivamente…
Chove e de vez em quando faz um vento frio…
Estou triste, muito triste, como se o dia fosse eu.
Num dia no meu futuro em que chova assim também
E eu, à janela, de repente me lembre do dia de hoje,
Pensarei eu «ah nesse tempo eu era mais feliz»
Ou pensarei «ah, que tempo triste foi aquele»!
Ah, meu Deus, eu que pensarei deste dia nesse dia
E o que serei, de que forma; o que me será o passado que é hoje só presente?…
O ar está mais desagasalhado, mais frio, mais triste
E há uma grande dúvida de chumbo no meu coração…


Álvaro de Campos

Tremor/ Temor

E Santos Neves
As vozes não têm idade
 quando contam os terramotos
   à luz das lareiras.

Agora como há muitos anos
  em redor das brasas
    se fala de terramotos.


   Kyoroku (1656-1715)