quarta-feira, 16 de março de 2022

«O monumento»

 

 Não se vê o seu rosto: ele olha para baixo,

Uma espingarda sobre os joelhos cerrados.

Não sente frio nem calor,

Não distingue a neve da chuva.

Não se vê o seu rosto: mas os vivos

Podem imaginar o que permanece escondido

E a sua cabeça inclinada

É a garantia de que ninguém o esculpiu.

 

Afeganistão, a segunda mundial:

Pena que não se comemorem a de Tróia,

A dos trinta anos, a do norte, a dos cem anos,

Não há um monumento comum a todas.

 

Vejo-me como um rosto,

Nada mais que um rosto de olhos fechados,

Um rosto: uma ilha no oceano,

Uma ilha no oceano do vazio,

Um rosto onde se nota o mais pequeno dos traços,

Orientado para o alto, como um hieróglifo,

Um hieróglifo gravado na pedra,

E ninguém para o ler.

 

Andréi Nitchenko, Rússia (1983)




domingo, 13 de março de 2022

Monólogo sobre a miséria

 

Oh, numa noite de chuva e vento

numa noite de neve e chuva

corta- me o frio

o desespero gela-me

A boca encho de aguardente e sal

que sorvo de um cantil

enquanto a barba hirsuta

acaricio e enxugo.

Mulheres levam

 crianças e velhos

         Choram

e pedem comida

- mas são perseguidos

Assim nada se ajusta

e nada muda

Oh! O céu e a terra são vastos,

 mas para nós

são pequenos e duros

O sol e a lua iluminam o mundo,

mas connosco

poupam a luz.

É sempre o mesmo?

 Só eu sinto assim?

 

Cru e sem vergonha

 o mundo abandona- nos

Dele não podemos voar

por não sermos aves.

 

Yamanoue no Okura, Japão, (660?-733)

    -excertos adaptados por mim-




sábado, 5 de março de 2022

«Que volte cedo e bem!»

 

Tome-se um homem,
Feito de nada, como nós,
E em tamanho natural.
Embeba-se-lhe a carne,
Lentamente,
Duma certeza aguda, irracional,
Intensa como o ódio ou como a fome.
Depois, perto do fim,
Agite-se um pendão
E toque-se um clarim.

Serve-se morto.

 

Reinaldo Ferreira, (1922-1959)



              No plaino jazem               

 abandonados

  frio vento os arrefece


  De balas trespassados

  a morte os apodrece


soldados? capitães?

Meninos de suas Mães.


domingo, 6 de fevereiro de 2022

«Livro dos mortos- poema VII»

 A amendoeira no inverno: quem pode dizer se esta madeira

em breve se vestirá de fogo no meio das trevas

ou de flores no dia uma vez mais?

Assim se alimenta o homem da terra fúnebre.

               Philippe Jaccottet, Suíça (1925- 2021)



sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

«O coração dos ouriços-cacheiros»

Por que hei-de cantar um hino às

florestas?

Por que hei-de louvar

o coração dos ouriços-cacheiros?

O coração de uma mulher, o coração de um homem

são maiores.

Mas eles recusam-se obstinadamente

a entrar nos meus poemas.

Por isso instalo-me na soleira

à espera de que alguém entre

e entretanto canto

as florestas e também

o coração dos ouriços-cacheiros.

 

Kurt Marti, Suíça (1921-2017)

     - tradução de Luís F. Parrado-




sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

Quase afasia

 

Rodeiam-me as palavras

         - só elas-

em sua versão grafada

não tem porquê a soprada

nos meus dias

cada vez mais

despovoados

A qualquer momento

uma avaria surgirá

em meu aparelho fonador

por falta de uso

por míngua de amor

outras partes do corpo

se desativarão

   até chegar a vez do coração.



quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

Andante

 

Terra e céu em suspensão

             cinzas pasmo

O bico amarelo do melro

rasga da solidão

  o marasmo

 no canto chega-me

o eros da palavra

o terso estigma a iris na flor

batendo súbito as asas 

a tesão do amor

irrompe apalavra

 brasas crepitam nos braços

centelhas que o corpo

encerra

Devolvei-me senhor

os seus abraços

o fogo da terra

o ondulante mar

e a via láctea no céu

por onde

eu

costumava

andar