segunda-feira, 10 de março de 2014

«Pássaros na garganta»- excertos

 «No céu da minha garganta, eu tenho a cantar, pássaros que quando cantam, não posso conter, solto o que se levanta do meu ser e voa ao sol no voo enquanto sou...»
...«ânsia de que a vida seja mais cheia de vida pelas alamedas, pelas avenidas, em aroma cor e som...»
...« mas quando num grito, raro, se apossa de mim o espírito desses pássaros que não tem fim, espalho-o pelo espaço que não há com amor e com arte, garganta e ar...»   Tetê Espíndola


sexta-feira, 7 de março de 2014

«Camila»-na Casa das Artes de Famalicão e E.Gismonti -no CCB


 Gismonti: no violão e/ou no piano, em Lisboa.


«Camila», ainda incipiente...


...hoje e amanhã, no seu melhor, em Famalicão.

                                       Entre les deux mon coeur balance!...

quarta-feira, 5 de março de 2014

Cordas e madeiro


A viola de madeira

A viola de madeira no silêncio
do seu canto. Desafinou-a o olvido. Dias
há em que padece que a toque
como usei tocar mas
os dons daquela caixa são presente
de um passado (boémio
idealista) a que não sei regressar. Côncava
(depois
conversa) quase cedo a pegar nela
não pelo rigor das cordas
mais
pelo cursar do madeiro.


J. L. Barreto Guimarães, Luz Última, Ed. Cotovia, Lda, 2006




Lance contra a escura acumulação



GUARDAR                               
            





Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.

Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.

Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.

Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro
Do que um pássaro sem vôos.

Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.


António Cícero, Guardar, Ed. Quasi, 2002- lido na edição de hoje do jornal  Público


domingo, 2 de março de 2014

Ilhas


                         Azorean Torpor

Onde a vaga retumba eram as obras do porto:
Roldanas, guinchos, cais, pedras esverdeadas
E, na areia da draga, ao sol, um peixe morto
Que vê passar na praia as damas enjoadas.
             
A cidade? Esqueci… Um poeta é sempre absorto;
De mais a mais - talvez paragens abandonadas.
O que é certo é que entrei um dia naquele porto
Em que as próprias marés parecem arrestadas.
             
Porque a mais leve luz que se embeba na Barra
Embacia os perfis dos cais e dos navios
Em frente à linha do horizonte que se perde…
             
E um desconsolo, um não-partir paira nos pios
Das gaivotas sem céu que o vento empluma e agarra
Estilhaçando o arisco mar de vidro verde.
             
Vitorino Nemésio, O bicho harmonioso
Coimbra, Revista de Portugal, 1938 (1ª ed.)

Azorean Torpor é um termo que foi inaugurado pelos irmãos Joseph e Henry Bullar, no livro A winter in the Azores, and a summer at the baths of the Furnas e refere-se ao entorpecimento e apatia que se instalava nos visitantes, por causa do clima, do isolamento, da vastidão. O termo foi reutilizado por Vitorino Nemésio, por Alice Moderno e outros.

Quem inventa ilhas apenas cria
 sabidos paraísos e infernos ainda iguais
 às vidas já vividas na agonia
 de ser o menos e almejar o mais.

Quem em ilha nasce logo cedo reconhece
 onde o menos se distende e como o mais fenece.


Terras. Porto, Campo das Letras- Editores,S.A.


Esta cantiga da terra abre, no entanto, perspectivas novas sobre o assunto. Obrigada,José.