quarta-feira, 20 de outubro de 2021

"o caldo do meu sangue"

 

 O caldo do meu sangue no qual patinho

 É o que em mim canta, a minha lã, minhas mulheres.

 Sem revestimento exterior. Deleita-se, derrama-se.

 Enche-me de vidros, granitos, cacos.

 Fende-me. Vivo nos estilhaços.

 

Na tosse, no atroz, no transe.

Constrói os meus castelos,

Nas telas, nas tramas, nas manchas.

 Ilumina-os.

 

Henri Michaux, (1899-1984)

  - traduzido por mim, do francês-



terça-feira, 19 de outubro de 2021

quinta-feira, 14 de outubro de 2021

A piroga


Tinham-me prometido um emprego

 Tinham-me prometido alimentação

 Tinham-me prometido trabalho a sério e esperança

 Na verdade até agora absolutamente nada

 É por isso que fujo

 É por isso que me pisgo nesta piroga

      Didier Awadi, Senegal

 (a tradução, do francês, é minha)




quarta-feira, 6 de outubro de 2021

Farol


a promessa da mão por estender

           breve fecho do dia

 branda noite em seu descer

me envolve me guia.

domingo, 3 de outubro de 2021

putrefação e germe


2 mãos 1 fórceps

  dois braços dois seios

          em arquejos

  Era outono 

germinando veranico.





terça-feira, 28 de setembro de 2021

«O canto do homem»

 

 É a canção dos sonhadores

 que a si próprios tinham arrancado o coração

  e o levavam na sua mão direita 

         G Apollinaire

 

O canto do homem

 

Quis para a minha aflição

 ruas estreitas, a carícia

 nos meus ombros das boas paredes duras.

 Mas vós, ó homens

 alargaste-as com os vossos passos,

 com os vossos desejos,

 com o bafio do rum,

 do sexo e da cerveja.

 Erro nos vossos labirintos

 multicolores e estou cansado

 do meu lamento.

 

 Assim

 na vossa direção vim

 com o meu grande coração nu

 e vermelho, e os meus braços pesados

 com braçados de amor

 E os vossos braços na minha

 direção se estenderam muito abertos

 e os vossos punhos duros

 bateram-me duramente na face.

 Então eu vi:

 os vossos vis esgares

 e os vossos olhos babosos

 de injúrias.

 Então ouvi

 à minha volta o coaxar, pustulento,

 dos sapos. – Logo:

 solitário, sombrio,

 agora forte e a minha sombra

 minha única companheira fiel,

 projeto o arco do meu braço

 por sobre o céu.

 

Jacques Roumain, Haiti (1907-1944)

(a tradução dos 2 poemas é minha)