terça-feira, 17 de janeiro de 2023

Amazonas

 

AMAZONAS

 As amazonas, mulheres temíveis, lutaram contra Hércules

 quando este era Héracles, e contra Aquiles na Guerra de Troia.

 Odiavam os homens e cortavam o seio direito* para que as suas

 flechas fossem mais certeiras [...]. Passaram os séculos. Das 

amazonas nunca mais se ouviu falar. Mas o rio continua a 

chamar-se assim e embora diariamente o envenenem os pesticidas,

os adubos químicos, o mercúrio das minas e o petróleo dos

barcos, as suas águas continuam a ser as mais ricas do mundo

em peixes, aves, contos.


 Eduardo Galeano, Uruguai, (1940-2015) in Espelhos


«A tradição literária e artística ocidental foi particularmente despiciente no que toca à representação da épica batalha travada por Aquiles e Pentesileia, cuja representação não encontra lugar nos poemas homéricos. O mito desta amazona não constituiu alvo de nenhum texto dramático ou épico, ao contrário do que aconteceu com outras heroínas da tradição clássica, nomeadamente Medeia, Antígona e Helena ...»

Sandra Sousa


Notas:

* As opiniões dos estudiosos dividem-se quanto a esse assunto...


    Heinrich von Kleist escreveu Pentesileia em 1806 e 1807 e foi                                                                         publicada em 1808.

      215 anos depois, a peça estreou em Portugal, em Lisboa,                                                                                   no Teatro do Bairro. Vá ver!


segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

«recuerdos de adão»

 

recuerdos de adão

 

em ti deus não acredito

nem preciso pois te sinto

e penso isso atravessado

por louca glória;

vi ouvi-te saboreei-te

pude saber-te, sou a

vítima do privilégio (e

antes mesmo do fim

nasço já dentro em ti)

só...espero que não

te importes!

 

estraguei foi o jardim


Manuel Rodrigues

                                   Ernesto Canto da Maia

quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

«A minha gente»

 

A minha gente

Parece ter brotado

Desta terra seca

 

Brotada dos vulcões

Nascida de uma concha

Que o mar depositou na areia.

 

A minha gente

Tem rugas de olhar o longe

Rugas de rir

De sofrer

E de morrer

As de morrer são mais bonitas

Provam o renascer

A cada dia.

 

Eileen Barbosa, Senegal, 1982



quinta-feira, 24 de novembro de 2022

« Poeta que sou»

                                                            Poeta que sou

 

Tem dias que estou botânica, afoita à flor, assim rosa.

Tem dias que estou em doida, adormecida, de ambulante.

Tem dias que estou radioactiva, átomos de versos, bomba.

Animal, às vezes de lasciva, outras vezes em toca e troca.

Mulher, que dentro me passeia, em sua estranha prosa.

Poeta que se evade da matéria, em tanta pedra, sou eu.

Poeta dos dias em que estou, afoita à dor, enfim rosa…

 

Margarida Fontes, Cabo Verde (ilha do Fogo), 1975



sábado, 19 de novembro de 2022

«Regresso»

 

Regresso

 

Mamãe Velha, venha ouvir comigo

O bater da chuva lá no seu portão.

É um bater de amigo

Que vibra dentro do meu coração

 

A chuva amiga, Mamãe Velha, a chuva,

Que há tanto tempo não batia assim…

Ouvi dizer que a Cidade - Velha

- a ilha toda -

Em poucos dias já virou jardim…

 

Dizem que o campo se cobriu de verde

Da cor mais bela porque é a cor da esp’rança

Que a terra, agora, é mesmo Cabo Verde.

- É a tempestade que virou bonança…

 

Venha comigo, Mamãe Velha, venha

Recobre a força e chegue-se ao portão

A chuva amiga já falou mantenha

E bate dentro do meu coração!

 

Amílcar Cabral, Guiné-Bissau (1924-1973)




quarta-feira, 16 de novembro de 2022

Prece


Afasta-se o templo com o pé tão piedoso de paquiderme

o colo de júbilo em verdor

e as mil tetas rosadas por sobre o ombro

à sede infantil do céu atiradas

Curvado sobre a sandália o peregrino sorri

Que esta noite se avivem as trevas

pois a via láctea será


                           S.K








sexta-feira, 11 de novembro de 2022

o outono dos dias

 

Serpentinas douradas

os dias de outono

esvoaçam furtivos

fogem da minha mão

Peras sumarentas

crisântemos castanhas

muitas árvores já despidas

húmido tapete de cor

cobrindo o chão

cogumelos crescendo

terra lenha madeira

a rescender

a lua já rasga as nuvens

alguém atiça a lareira

longas serão as noites

 

Serpentinas douradas

os dias de outono

fogem da minha mão