segunda-feira, 15 de agosto de 2022

5 landay do exílio

Grande Deus dos exilados!

Quanto durará a vida nestas planuras áridas?

 

Pelo meu rosto resvalam as lágrimas,

não consigo esquecer os cumes nevados das montanhas de Cabul.

 

Tenho na mão uma flor que se fana

não sei a quem dá-la nesta terra estranha.

 

Que podes fazer senão lutar?

Submetido não passarias do escravo de um escravo.

 

Na noite negra que nos separa,

com uma tocha na mão, procuro o meu caminho.


  Notas:1- a fotografia não é minha. A tradução sim.

        2- O Afeganistão esteve ocupado por ingleses, russos

           e americanos; atualmente tem no governo os taliban

            e vive" uma crise económica sem precedentes". 




 

domingo, 14 de agosto de 2022

* 5 pequenas serpentes venenosas

 

5 Landay*

 

Em segredo ardo, em segredo choro,

sou a mulher pachtun que não pode revelar o seu amor.

 

Num instante serias um montão de cinzas

se lançasse sobre ti o meu olhar incendiado.

 

A noite passada tive um sonho que se realizou:

o meu temeroso amante tomou-me nos seus braços em pleno dia.

 

Que outra coisa pode fazer senão comportar-se como um herói

pois sob a sua cabeça coloco a almofada dos meus brancos braços?


Se me beijares a boca, deves dar-me o coração.

Os que saem da minha cama, como prenda, deixam o coração.


*dísticos feitos e cantados em coletivo, ainda hoje, por mulheres pachtun,

 (do Afeganistão e da diáspora), ritmados por um tambor.

                                - a tradução, do castelhano, é minha.-


sexta-feira, 12 de agosto de 2022

Traições

 









(...) Traduzir nunca é simples. Traduzir é trair de uma forma imprecisa,

 é ser intermediário em negócios escuros, ajustar o preço de uma frase

 por uma outra. Traduzir é uma das únicas atividades humanas onde se

 é obrigado a mentir nas minúcias para repor a verdade por atacado.

Traduzir é assumir o risco de compreender melhor do que os outros

 que a verdade da palavra não é única, mas dupla, quiçá tripla,

 quádrupla ou quíntupla. Traduzir é afastar-se da verdade de 

Deus que, como cada um sabe ou acredita saber, é una. (...)


                                David Diop, in Frère d’âme

                            -a tradução, do francês, foi feita por mim. -




terça-feira, 9 de agosto de 2022

O x do problema

 

(…) Os acontecimentos que surpreendem o homem foram todos vividos

 por outros homens antes dele. Todas as potencialidades humanas foram

experimentadas. Nada do que nos sucede na terra, por mais grave ou

 vantajoso que seja, é novo. Mas o que sentimos é sempre novo porque

 cada homem é único, como cada folha de uma mesma árvore é única. O

  homem partilha com outros homens a mesma seiva, mas é de modo

 diferente que se alimenta dela. Mesmo se o novo não é verdadeiramente

 novo, mantém-se sempre novo para aqueles que sem cessar vêm encalhar

 no mundo, geração após geração, vaga após vaga. (…)

                                           David Diop, Frère d’âme

                                                         (traduzido, do francês, por mim)






domingo, 7 de agosto de 2022

«Lullaby»

 

Canção de embalar

 

Descansa agora. Foram

demasiadas emoções.

 

O crepúsculo, depois a noitinha. No quarto

cintilam pirilampos, aqui, acolá, aqui, acolá,

e a funda doçura do Verão entra pela janela aberta.

 

Não penses mais nestas coisas.

Ouve-me a respirar, ouve-te a respirar

como os pirilampos, cada pequeno sopro

é um clarão onde aparece o mundo.

 

Já cantei muito para ti na noite de Verão.

Hei de conquistar-te, no final: o mundo não pode conceder-te

esta visão contínua.

 

Deves aprender a amar-me. Os humanos devem aprender a amar

o silêncio e o escuro.

 

Louise Gluck, EUA, 1943

(tradução de Ana Luísa Amaral)


sábado, 6 de agosto de 2022

O cálcio das estrelas

 Madalena: rectificar a história


ainda assim,

tentar


rectificar

o sol:


um agasalho

interno

para o coração


Ana Luísa Amaral, 1956- 2022

«Rosa Radioativa»




   Um pouco

 do que ainda temos.